segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O POVO DO BELO MONTE

...





2004

Editor
Rey Vinas

Telas e desenho
Marcos Quinan

Capa
Zenivelto Dias Jr

Fotografias
Janjo Proença
Edyr Augusto
Fatinha Silva

Revisão
Conceição Elarrat


Quinan, Marcos.
O Povo do Belo Monte. Brasília: R. Vinas Editora Projecto Editorial, 2004

222p. ISBN 85-88401-11-7
1. Romance brasileiro. I. Título





Para Camilo Delduque
e
Joca







Agradeço a Luciana Rabello, Dilú, Paulo César Pinheiro, Angélica Torres, Roseli Naves, Calibre, Miudinho, Reivaldo Vinas e especialmente a Fatinha Silva, Conceição Elarrat, Janjo Proença e Edyr Augusto.








... e houve um tempo
mudado em sangue, fogo e morte
que rezava a igualdade, a liberdade
na lealdade da mesma oração

... e houve um tempo
calando o sino das horas vivas
que consagrava o trabalho e a lealdade
na igualdade de sermos irmãos

... e houve um tempo
de fé sertaneja em que a esperança
igualada à liberdade
davam-se as mãos

foi na caatinga
lugar de sertãobrasileiro
assim, emendado por inteiro
mudado em farsa
onde só carcaças
pareceu
restar no chão

mas há no tempo irreverente
sobrevindo a semente
do pensamento sempre presente
desses homens
brasileiros e sãos


M.Q.









“O senhor sabe o que o silêncio é?
É a gente mesmo, demais.”


Guimarães Rosa









Sumário




Enunciado - Cópia do artigo de Brás Teodoro a uma revista de grande circulação que foi censurado pela ditadura.

Brás Teodoro – Seu relato sobre os últimos dias.

O Povo do Belo Monte – Fotografias. Únicas imagens deste trabalho, a espátula como foi encontrada e seu último esboço deixado junto aos poemas.

Anabel – Relato de sua convivência com Brás Teodoro.

Poemas – Deixados pelo pintor para Anabel.

Posnunciado – Sobre Anabel.











Enunciado




Quando começam as pesquisas arqueológicas no sítio onde era o Belo Monte e onde se passaram as batalhas da Guerra de Canudos, rapidamente, mesmo com os técnicos apontando outro lugar tão ideal quanto, começam a construção da barragem de Cocorobó no Vaza-barris. Suas águas vão encobrir toda a região. São políticos ainda fardados escondendo seu passado, encobrindo rastos.

Não entendo a falta de estudos sobre o episódio de Canudos. Uma utopia? Não é assim que penso o assunto. Houve uma realidade ali, não era sonho aquilo; não era um bando de coitados e um louco. Nem tampouco alguma ideologia vinda de onde quer que fosse e assimilada por desamparados. Tudo aquilo foi construído pela necessidade e acabou unindo o destino individual e o coletivo, dando sentido à vida do povo que sofria com a seca e o abandono. Dessa história, nossa realidade, precisávamos cuidar melhor, aprender com ela. E não é por outro motivo senão por nós mesmos, por cada um de nós. A ignorância não deveria mutilar tanta gente como ocorreu e como ocorre até hoje.

As razões da existência dos beatos estão na seca, na miséria consentida pelo poder da política, das oligarquias e da religião; na transferência dos registros da Igreja para o Estado, entendida como uma forma nova de escravidão. Daí as revoltas como as do Ronco da Abelha e do Quebra Quilo.

As origens da congregação de tantas pessoas em torno do beato Antônio Conselheiro estão na necessidade de se juntarem contra o infortúnio da seca e da miséria que marcou e marca até hoje o sertão nordestino. Isso tudo está nos ensinamentos e pregações do Padre Ibiapina – cearense, estudioso e fazedor, que deixou a toga pela batina e inspirou no sertanejo essa mistura de fé e esperança com provimento; ensinava ir fazendo sem por ninguém esperar: nem estado e nem igreja.

Foi assim que o catolicismo sertanejo, nascido do descaso da igreja e do estado, começou a aparecer, através da Irmandade dos Beatos, no pensamento de Ibiapina... Foi assim que dezenas de obras sociais e públicas foram construídas. Assim surgiram as Casas de Caridade que cuidavam da saúde, educavam, reuniam os desvalidos na construção dos açudes, cemitérios, igrejas e asilos... acabando por se transformar em instituição paralela, incômoda e perigosa ao poder constituído, até Ibiapina ser proibido pela Igreja do Ceará. Mas aí, a Irmandade dos Beatos já havia deixado livros e ensinamentos contendo as Regras do Bem Viver; ajudando formar muitos seguidores que perambulavam pelo nordeste: beatos, beatas, sacerdotes ou não, entre eles – compartilhando o pensamento - Padre Cícero, Conselheiro e muitos outros.

Tantos viviam sem oportunidades, com a fome e a sede empurrando-os para qualquer servidão, que de pertences só tinham mesmo as algemas da miséria, oferecidas por degradantes proprietários de terras – que formavam outro poder, tanto no Império quanto na República, legislando em conivência com a Igreja.

Com o Imposto do Chão tirado da boca, a dignidade andava muito mais perto dos rastos de um beato do que em qualquer povoado onde os donos da terra reinavam com o Colete de Couro: eram as oligarquias, a política e a igreja espremendo vontades.

O militarismo se engalfinhando e se omitindo, ampliando seus séqüitos... os políticos em conchavos recebendo até patentes. Uma luta inventada no sertão assedentado; os desvalidos fazendo falta aos senhores e seus grilhões. Forças estaduais despreparadas, abrindo até prisões para formar contingentes. Estranho para o exército grande que tínhamos. Alguém se opunha verdadeiramente à República? Ou seria nosso militarismo se justificando? Será que eles não precisavam de um acontecimento grande para isso? Para se projetar nacionalmente?

O Belo Monte ou - como a maioria chama - Canudos era uma pequena comunidade de algumas casas quando Antônio Conselheiro chegou lá com seus seguidores, depois de passar muitos anos peregrinando pelo sertão, deixando por onde passava um rasto de dignidade, apesar de a intolerância queimar as mãos dos poderosos.

Por que construir uma comunidade ali? Será que não era pelo número de pessoas que já o seguiam? Pela perseguição que lhe faziam? Será que um beato construtor de igrejas, açudes, pontes e cemitérios, ao ver tanta gente para alimentar, não pudesse ter a simples idéia de parar num lugar e iniciar um lugarejo, conclamando seus seguidores a viver e produzir para a boca, escolhendo a beira de um rio quase perene, o Vaza-barris, escolhendo construir melhor um modo de viver e poder olhar todos nos olhos?

Por que um lugar miserável se ali não se passava fome? Entrava e saía, qualquer um, quando quisesse; trabalhavam e o que cada um produzisse, uma parte era usada para ajudar quem vinha chegando. Como era construir uma igreja naquela época? E casas de taipa com o luxo de passar barro, pintando as paredes? Plantar, colher, criar animais de corte, fazer farinha, comercializar na redondeza o excedente e dar ao estado a maior fonte de receita do imposto de exportação sobre peles? Andar pela região por anos seguidos sem cometer nenhum crime, sem roubar, sem atacar ninguém; ver dia após dia gente de todo o sertão integrar aquela comunidade, acreditando uns nos outros?

Não obedecer a algumas leis, legisladas na complacência dos próprios interesses, contestar a cobrança de um imposto municipal que o executivo arbitrava despudorado, quase no valor da coisa vendida... é um crime? Então, reclamar uma mercadoria paga e não entregue seria outro? Intitular-se contra um regime político é crime? Desvalidos combatendo a República ou encontrando caminhos e contagiando o sertão todo? Qual tamanho de indignação pode caber num homem?

Um doido, um fanático, não constrói um lugar do quase nada; não congrega tanta gente em volta de si e de suas idéias se nelas não houver uma verdade e uma esperança. Um demente religioso fanático não permite a liberdade se processar fora de sua doutrina; não luta contra a escravidão... Há uma grande injustiça histórica quando se omite Antônio Conselheiro ao se falar do abolicionismo. Sobre isso existem relatos de imigrantes italianos que trabalharam na construção da estrada de ferro que corta a região e testemunharam pregações dele contra a escravidão: os escravos andavam distâncias para ouvi-lo.

Estranho um monarquista ser o abolicionista que foi. Não dá para ser simplório e achar que entre os escravos não existia alguma formação; que muitos deles não descendiam de mouros, islâmicos, acostumados a lutar... eram alfabetizados e ensinavam aos seus descendentes. Imagine a cultura e a índole indígena dobrando-se a um fanático religioso, trabalhando junto. Não dá para entender isso possível no tão pouco tempo do Belo Monte. O povo achando uma forma de ser, juntando-se em caminhos.

Foi o melhor esboço sobre a nação brasileira que, infelizmente, a maioria não viu. Não dá para supor que as raças que compõem nossa etnia fossem naquela época destituídas de suas culturas... não dá pra imaginar uma comunidade que funcionava como outra qualquer, existir apenas seguindo um pregador, que diziam ser messiânico até a morte.

Uma coisa é reunir multidões para ouvir uma pregação, fazer um protesto, uma manifestação política ou qualquer coisa sobre o que quer que seja... até para cobrar um dízimo... basta ter carisma. Mas, outra é manter um arruado funcionando, juntando os desiguais; reunindo a moeda imperial com a republicana e a dela própria; merecendo crédito na redondeza, possuindo organização própria, administração civil e religiosa, duas escolas e até cadeia que chamavam poeirão, por estar sempre vazia. Será que não seria mais lógico aprender com esses fazedores? Gente que teve a capacidade de matar para defender seu lugar, mais ainda de morrer por ele?

Em Belo Monte, o culto religioso não era obrigatório: também não se obrigavam casamentos; existiam mães solteiras, mas elas não sofriam preconceitos, tudo era dividido entre todos que viviam nas Regras do Bem Viver, não só comida, ferramentas, mas afeição e solidariedade também. As pessoas trabalhavam, tinham a liberdade de entrar e sair, de comercializar. Restrições mesmo só à cachaça e à prostituição.

Ideais não saem das formas de governo, mas nações podem nascer de ideais. Canudos como ética redentora... à espera do Messias... marxista... e outros rótulos legados por nossa política militarista e pela imprensa da época, por interesse ou ignorância dos fatos, testemunhos duvidosos, pressão e exigência ou endosso da maioria dos poderosos da Nova República.

Será que os conselheiristas não faziam falta nas listas de votação tanto quanto na força de trabalho remunerado de qualquer jeito? Será que não se temia fosse Antônio Conselheiro eleito por seus seguidores?

Temos Villa Lobos, Guimarães Rosa e Cândido Portinari, mas na prática não temos na nossa formação e nem na nossa cidadania. Temos o episódio de Canudos mas na prática também não o temos. Minha crítica é aos nossos historiadores... sim, aos nossos educadores, ao nosso jornalismo preguiçoso, à nossa despreparação no quesito brasilidade.

Francisco de Assis, Antônio de Pádua e mais pelo menos uma dúzia de outros tiveram uma vida pessoal bem parecida com a de Antônio Maciel. Ele santos venerados.. o nosso brasileiro... um fanático? As prédicas que ele deixou escritas em dois cadernos demonstram coerência e não o contrário. Por que será que foram deixados de lado por jornalistas, educadores e escritores?

Desgarrado de qualquer laço com a riqueza e a hierarquia instalada, Antônio Conselheiro sucumbiu junto ao povo do Belo Monte sem que o governo, a polícia, os juízes, o exército, o poder da Igreja, atiçados por intelectuais, entendessem aquela visão de mundo. O episódio carrega a dor da injustiça, o genocídio de um povo que vivia da palavra do mesmo Deus em que seus algozes acreditavam, do seu trabalho e de fazer o bem.

Tenho certeza, jamais vou entender essa lógica de que a história está escrita e só temos que preencher os papéis; esse conformismo não cabe dentro da minha vida, dentro da minha arte e nem dentro da minha brasilidade.

A história do povo do Belo Monte passa por conhecer o que era o sertão nordestino na época do catolicismo sertanejo; conhecer Antônio Vicente Mendes Maciel desde o início de sua peregrinação, o beato construtor de cemitérios, açudes, igrejas... O abolicionista que pregava aos escravos e aos destituídos, a palavra do Deus em que acreditava e tirava do nada a dignidade e a esperança.

Passa por entender a região com relação ao homem nas grandes secas seguidas que empobreceram cada vez mais o sertão e escravizaram os livres aos cativeiros dos grandes donos de terras e usinas que acabaram usando o escravo e o homem pobre igualmente pelo poder de dono e de possuidor.

Passa por entender a igreja com suas múltiplas verdades sempre atrelada aos poderosos por séculos e séculos; suas contradições e culpas impostas, não aceitando a própria palavra do seu Deus pregada pela boca e gestos de um simples beato penitente que ela, por conveniência, ajudou a criar.

Passa por entender o momento histórico que foi a falta de braços depois de acabar a escravidão, e a falta que fazia o trabalho de cada sertanejo seguindo o beato.

Passa por entender a imprensa quase sempre servindo às elites, amplificando interesses. Passa por entender nossas forças armadas, na época mais força e mais armada com a República começando e já começando com as disputas mesquinhas pelo poder.

E por entender o custo do deslocamento de grande parte do exército, tropas de quase todos os estados, abastecidos com certeza pela ganância comercial que ronda as contas públicas; quem no mundo se negaria a emprestar somas à jovem República militar repleta de riquezas - e sabida por todas as inglaterras do mundo - naquele momento ameaçada por um poderoso líder local, vestido de túnica azul e com um cajado na mão, lançando pela boca sua arma poderosa e mortífera, enquanto a elite europeizada acreditava em trazer emigrantes para trabalhar a um custo absurdo, ao invés de usar nossos miseráveis sertanejos, fazedores, ex-escravos e mestiços iletrados como força de trabalho? Quanta dignidade poderia ser ensinada e aprendida? Sobre muitas dessas coisas passamos ao largo ou superficialmente e não deveríamos.

Existem perguntas demais para serem respondidas. Apesar de, de poucos anos pra cá, graças a alguns incansáveis e abnegados estudiosos, estar aparecendo relatos e estudos interessantes. Acho pouco, muito pouco o que sabemos. Parece que esse assunto ficou nos porões da nossa República há tanto tempo que o descaso apagou.

Mas falta muito sobre o assunto. O episódio de Canudos deveria ser dissecado em todos os aspectos, desde o catolicismo sertanejo que supria não só o espiritual do povo do sertão, mas até o material no estado omisso, passando por entender todas as ligações políticas e religiosas que formavam o emaranhado do poder; até as prédicas de Antônio Conselheiro que ele deixou e que foram solenemente ignoradas por muito tempo, preferiram utilizar oficialmente outros escritos que não o traduziam. Ele era poeta também e suas prédicas, cartas e versos, sua despedida, como abaixo, só o revelavam.

“Preza aos céus que abundantes frutos produzam os conselhos que tendes ouvido; que ventura para vós se assim o praticardes; podeis entretanto estar certos de que a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa luz e força, permanecerá em vosso espírito. Ele vos defenderá das misérias deste mundo; um dia alcançareis o prêmio que o Senhor tem preparado (se converterdes sinceramente para Ele) que é a glória eterna. Como não ficarei plenamente satisfeito sabendo da vossa conversão, por mim tão ardentemente desejada? Outra coisa, porém, não é de esperar de vós à vista do fervor e animação com que tendes concorrido para ouvirdes a palavra de Deus, o que é uma prova que atesta o vosso zelo religioso. Antes de fazer-vos a minha despedida, peço-vos perdão se nos conselhos vos tenho ofendido. Conquanto em algumas ocasiões proferisse palavras excessivamente rígidas, combatendo a maldita república, repreendendo os vícios e movendo o coração ao santo temor e amor de Deus. Todavia não concebam que eu nutrisse o mínimo desejo de macular a vossa salvação (que fala mais alto do que tudo quanto eu pudesse aqui deduzir) me forçou a proceder daquela maneira. Se porém se acham ressentidos de mim, peço-vos que me perdoeis pelo amor de Deus. É chegado o momento para me despedir de vós; que pena, que sentimento tão vivo ocasiona esta despedida em minha alma, à vista do modo benévolo, generoso e caridoso com que me tendes tratado, penhorando-me assim bastantemente! São estes os testemunhos que me fazem compreender quanto domina em vossos corações tão belo sentimento! Adeus, povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança deste peregrino, que aspira ansiosamente a vossa salvação e o bem da Igreja. Preza aos céus que tão ardente desejo seja correspondido com aquela conversão sincera que tanto deve cativar o vosso afeto.”

Não custa lembrar que parte da ralé do vitorioso exército, que chacinou os conselheiristas, ficou acampada no Rio de Janeiro, no, antigamente chamado, Morro da Gamboa, de frente ao Ministério da Guerra ou ao nome que isso era chamado na época, esperando as medalhas e decerto o soldo e por terem lutado no alto da Favela, viraram os favelados... originaram nossas favelas e os problemas que elas carregam em si; um monstro já velho, nascido bastardo no ventre fardado da nossa jovem República.

Acho absurdo estarmos perdidos de nós mesmos. Tem hora que penso que minha lucidez com relação à Brasilidade é insanidade, por isso pinto minha loucura, entalhes de angústia, amor e dor.

Brás Teodoro








Brás Teodoro




Pensava na rotina da minha angústia, de como gostava daquele fazer repentino, da intuição comandando tudo, de não ter nenhum conhecimento formal sobre nada. Aquilo me colocava nu diante da manifestação: minha arte sem polimento nenhum, consentida. Simplicidade gritando emoção – me disseram uma vez: - És um desesperado, por isso és são!

Eram meus pensamentos enquanto preparava o papel machê.. dali queria a possibilidade de esculpir, como já fizera no barro, sem que minhas mãos engelhassem. Preparava o material quando senti o ar ficar abafado como se estivesse sem umidade. Parecia, como se isso fosse possível, que as pequenas partículas não contivessem água e sim uma tristeza vinda de longe.

Contracenando com o momento, ouvia as Bachianas de Villa Lobos que da vitrola pareciam gritar esplendor e melancolia ao mesmo tempo. O ambiente todo conspirou com aquela sensação. Da rua não ouvi mais nenhum barulho. Tudo em volta estava parado. Um silêncio que só deixava a música espargindo, afiando o ar. Meu corpo rebelou os gestos e jogou o papel machê na tela branca que nem percebi apanhar no canto da sala. O material preparado pareceu ter vida própria e se arrumou na tela esparramando sinais; não me senti manuseando a espátula.

O papel machê tornava-se barro diante dos meus olhos e se punha em criação erguendo uma fisionomia familiar e sofrida. A tristeza do ar entrou pelos pulmões e explodiu nos movimentos atormentados das minhas mãos; os cigarros que acendia se queimavam no cinzeiro sem que me lembrasse de tragá-los; o movimento dos meus pensamentos queria não entender a hora, mas entendia de alguma maneira aquele rosto que ali nascia ou renascia e que tinha a arquitetura da solidão. De seus olhos brotavam lágrimas que a espátula espremia no barro de papel. A boca balbuciou.

– Sou Antônio...

E mais nada.


***


O bater na porta me tirou daquele encanto, se assim se pode dizer. Foi desta forma que a conheci, olhando minha última produção, uma série de cenas sertanejas. Seu acompanhante via tudo com o desinteresse de quem só faz companhia, mas o olhar dela percebia vida e se emocionava. Senti vontade de chorar e de que ela chorasse comigo. Senti vontade de que aquele homem se fosse e ela ficasse; de colocar de novo o disco e aumentar o volume e sentar ao lado daquela desconhecida para ouvir a Quarta Bachiana e chorar silenciosamente para sempre.

Nada disso aconteceu. O casal elogiou meus quadros, perguntou por uma exposição e manifestou intenção de comprar um dos trabalhos para a parede dum quarto. Voltaria noutra oportunidade e se foi como tantos outros.

Desandei a chorar mal saíram. Desandei a beber e a chorar sozinho. Sentia-me distante, numa espécie de espanto, não estava só. A música entristecia ainda mais o momento. Por quê? Não sabia. Nada naquele dia era racional ou explicável. O simples gesto de acender o cigarro era diferente, parecia eu mesmo e próprio, me vendo fazer as coisas e não que as estivesse fazendo. Via-me chorando e sentia o rosto esculpido no papel secando na mesa vestindo o meu; sentia os olhos daquela mulher bonita sendo os meus e chorando com os meus; sentia a presença de Villa Lobos regendo minha tristeza indefinida. Tudo era vago; o momento desacelerava em volta, vagarosamente. Sentia as lágrimas esfriarem escorrendo pela pele e um aperto me crispando o peito.

Um cansaço mais que físico, parecendo uma ressaca, o excesso de sensações deixando torpor e junto um conforto foi tomando conta, tomando conta... até que desabei com o nascer do dia.

Quando acordei, pensei ter sonhado tudo aquilo até ver em cima da mesa o quadro quase pronto, mas ainda úmido, talvez das lágrimas, pensei, descartando o sonho e me lembrando do rosto da mulher que queria um quadro para seu quarto junto daquele homem elegante demais, formal demais.

Não sabia o quanto tinha dormido. A vitrola continuava repetindo as Bachianas e era dia claro. Na cozinha, enquanto preparava o café, também lidava com mais material; queria trabalhar como no dia anterior, penetrar fundo naquela situação irreal e parecendo prevista, esperada ou quem sabe até desesperada.

Lembrava; Antônio... enquanto sentia as mesmas sensações do dia anterior. Tomei café puro e acendi o primeiro cigarro, olhando pela janela a rua calma. Decerto seria um domingo.. não sabia que dia era, que horas eram. O tempo saiu de meu entendimento: desaprendi ler as horas e constatei isso ao ficar em frente ao relógio, olhando o objeto. Alguma coisa me induzia a não tomar conhecimento de nada, não sentia o gosto do café na boca, menos ainda do cigarro. Sentia-me irreal, até tocar a espátula e começar a trabalhar.

Olhei pela sala e vi as duas garrafas vazias que havia tomado. Imaginei a ressaca com que deveria estar e não estava; sentia-me bem e novamente dentro de um tempo impreciso; dentro de uma tristeza imprecisa e densa. A música parecia rasgar o ar em tiras de melancolia e atingir meu corpo com uma dor pungente que doía e libertava, como se só uma coisa fosse.


***


- Sou Ana das Letras...

Ouvi claramente.

- No tempo que estás... ele foi Antônio.

Ouvi de novo.

Pensei no quadro que secava me falando, esperava isso mas ela estava era parada, próxima à porta como se pedisse licença para acabar de entrar; uma mulher magra, de gestos simples e voz rouca. Entrou em silêncio, tomou o quadro nas mãos e sorriu dizendo.

- É ele quando foi Antônio! Tu sabes dele? Parecia com meu avô.

E começou a falar do avô.

- Vivia do mar! Eu era pequena... ele perlustrava a calma do mar, com o olhar de velho pescador; penetrava naquela imensidão, identificando a feição do vento e o movimento das marés. As mãos grossas lidando com a rede e a sabedoria remendando as palavras mal conhecidas, quase sussurradas no grave da voz... apontando o cardume do fulano no qual iam sair pra pescar. Do fulano porque ele primeiro o viu, no mesmo ser, de todos que nele pescariam o sustento. Ali qualquer cardume era do mar, do mundo, de Deus e dum pescador. Foi a lição que levei para a vida toda.

E ficou calada ao lado da mesa em que comecei a trabalhar; às vezes sorria dissipando um pouco a tristeza que me freqüentava inexplicavelmente. Sua atenção não era para a espátula que bulia o barro de papel espalhado pela tela: o que olhava era a estante repleta de livros a sua frente.

A sensação era igual a que senti ao olhar o relógio, de total desentendimento. Não conseguia falar uma palavra e, ao mesmo tempo em que delineava rostos disformes na tela, via aquela mulher curiosa percorrer os títulos dos livros com muita atenção percebendo a música com um ligeiro balançar de cabeça.

Correu os dedos pela lombada e se deteve por instantes em alguns. Olhou demoradamente os de Guimarães Rosa, agrupados no segundo vão, prestando muita atenção. Quando começou o segundo movimento da Nona Bachianinha fez um gesto apontando a música no ar até dizer com um sorriso:

- Tu conhece eles por nós!

E virou a cabeça olhando o andamento do quadro em cima da mesa.

- A Guarda Católica... vou trazer nosso povo aqui! Eu voltarei...

Disse ampliando o sorriso e se virando em direção à porta.

Não conseguia parar de trabalhar o quadro. A Guarda Católica me tirava dos instantes sem que percebesse; não conseguia pensar em nada, não sentia vontade de fumar, comer ou qualquer coisa normal de se fazer. Parecia de novo não estar no meu corpo. Vi-me em lágrimas e os via em lágrimas; uma tristeza procurava a cor nas tintas e uma urgência comandava os movimentos de fazer mais papel-barro, espalhando em todo tamanho de tela que havia disponível na minha frente. Ali renasceram naqueles dias muitos rostos do Povo do Belo Monte. A angústia me tomava, e a agonia trabalhava em minhas mãos, nenhum sentido estava envolvido com outra coisa. Numa hora, o cansaço bateu, e tudo que estava quase pronto, secando para receber acabamento e os retoques finais saltou para dentro da minha alma.

O que sentia na hora não sei descrever; me percebia exaurido e sem cansaço, numa sensação só. De novo bebi como se o álcool fosse necessidade do corpo; me senti um alcoólatra; lembrei os meus tempos de boêmia e fiquei horas olhando as figuras num misto de perplexidade, contentamento, dor e tristeza, mas sem derramar lágrima alguma.


***


No telefone era Anabel de quem nem lembrava o nome, querendo voltar para escolher o quadro e trazer com ela um amigo do interior, um poeta que queria muito me conhecer. Na conversa mencionou que estivera na minha casa três dias antes. Voltei à racionalidade nesse momento e consegui ver as horas. Descobri que não me alimentava, não dormia e nem fazia nenhuma higiene pessoal. Olhei em volta a bagunça que estava a casa; lembrei que só no outro dia a diarista viria cuidar da limpeza. Dei uma arrumada superficial na sala, tirei as marcas de tinta do corpo, tomei um banho demorado e fiquei esperando.

Abri a porta com a fisionomia cansada e aparentando muita solidão. A casa estava silenciosa como se fosse um lugar de meditação; o cheiro de tinta carregava o ambiente, mas atenuava o forte odor de papel com cola ainda secando em muitas telas espalhadas pela casa.

O entendimento sobre a compra do quadro foi breve, mas nossa conversa entrou noite adentro. Havia muita curiosidade sobre a temática que estava pintando. Eles acharam um pouco sombrio e triste, queriam saber mais.

Contei o que me pareceu que devia: o tema era recorrente em minha vida, fazia muitos anos; desde muito jovem que lia tudo o que encontrava sobre o assunto; chegava a pesquisar, publicar artigos em jornais e revistas... que achava uma história muito mal contada... omitindo, claro, todos os meus problemas com a ditadura, o transe pelo qual estava passando e que nem eu entendia. A conversa foi mudando para outros assuntos. Falamos de poesia e música. Ela deixou o jovem poeta e se despediu no meio da madrugada.

Bebemos até o amanhecer, ele tinha um talento quase impertinente para conversar e dizer da sua poesia, era como se estivesse sonhando. Adormeci sentado e só acordei na metade da manhã. Ele permanecia na sala ainda bebendo e lendo. Saímos para um bar que não me lembro... encontramos outro poeta seu amigo e os dois se puseram a escrever em guardanapos... decerto nos despedimos ou nos perdemos no fim da tarde. Voltei pra casa acompanhado de um cão que me seguiu pelas ruas, surgido não sei de onde, que me acompanhava e me ignorava ao mesmo tempo. Sumia das vistas e retornava no outro quarteirão, mais parecendo uma visagem. Quando eu o olhava, virava a cara pro outro lado como se não fosse com ele e continuava desaparecendo e aparecendo.


***


Entendia estar pintando o povo do Belo Monte mas não entendia como tudo estava se passando. Nunca havia trabalhado com aquele material ou com relevo em tela. Em mais de cinqüenta anos de profissão conhecia todos os processos que o mando da intuição punha nas minhas criações, mas aquilo era totalmente diferente.

Dizer que não temia a loucura, não posso. Sempre acreditei que é a lucidez que desenvolve minha intuição e coloca tanta emoção dentro de mim.. isso admitia ser minha loucura. A temática do meu trabalho foi clara desde o início, nunca saí dela por isso sabia agradar e me sabia um artista diferente, vivi disso.

Por mais que quisesse pensar não conseguia. Um encantamento qualquer e invisível tomava minha vontade e repetia a ação de ligar a vitrola, colocar o mesmo disco, preparar o material e entrar naquele mundo de fisionomia e cor de terra. Perdia a noção do tempo e não sabia mais sobre seu processo: meses, anos, dias, horas ou momentos... Tanto fazia. Dele, as únicas referências que tive foram as visitas de Anabel.


***


Na segunda vez que ela veio eu estava terminando As Beatas. Senti sua presença ao meu lado; parecia mais velha e foi quando mais demorou. Olhou com carinho os quadros que estavam quase prontos pela sala - um por um – até se deter no Beato.

– Segui o Beato desde que o conheci... era chamado Antônio dos Mares. Tu sabes... construiu igrejas e cemitérios pelo sertão, a fé e a esperança guiaram seus passos. Tu sabes... a fé sertaneja contra a incúria, o descaso... tens fé? Acreditas em Deus, meu filho? Acreditas mais nos homens, né?

Era como se ouvisse meus pensamentos. Foi como consegui descobrir a forma de comunicação que estávamos tendo desde o primeiro encontro. Então, ela me sabia ateu, descrente? Então, sabia que só acredito no deus e no demônio que estão nos homens.

- É, sei... sei ...

Ouvi a resposta e a vi encantada com minha estante, correndo os olhos por cada um dos livros, parecia planar pelas notas da música. O semblante sofrido cedia algum contentamento como se ela estivesse conversando com a música.

– Pinta as Beatas cantando loas, como em Bom Jesus, pediu.

Meu pensamento vagou como fosse um seguidor, pela imensidão, em todos os lugares da peregrinação, e senti a desesperança sendo tomada por aquele homem franzino que apareceu de repente junto a Ana das Letras. Agora olhavam os livros e se embeveciam com a música, pediam loas.

Um sofrimento estampado num vasto qualquer; um nada; secas medonhas; o demônio de homens medonhos pervagando a caatinga. A fé sertaneja espalhou-se junto, caminhando junto; sendo construída sem medo, dentro dos homens, por seres desconformados dos limites dum estado, omisso e sem feitio.

Meu pensamento viu o Beato juntando o sofrimento com a esperança, criando o rosto da fé sertaneja, viu semear um legado de feição a feição. As imagens se formavam com muita velocidade e me colocavam num lugar e noutro; num tempo e noutro, fora do meu.

Aclarava, como se fosse eu, a memória. E recitasse prédicas e visse santos, gritasse hinos e tivesse fé. Como se ensinasse compartir sem as alfaias, vestindo a sina de só ser irmão. Com ele ia junto zelando o sertão, semeando o cuidado pela alma do corpo, pelo corpo da alma. A deudar-se inteiro em rica pobreza; pastorava sem medo, era a fé sertaneja pervagando a caatinga, pregando o trabalho na cartilha do amor.

Novenário nas mãos, ensinando o pão e a ser uns pelos outros como convém ao cristão. Arrogava a esperança na gente do sertão e fazia da crença a semente, calando poderosos de batina ou não.

Espalhando, andávamos caminhos plantando o exemplo. Minha memória, no Penitente ensinando tanta gente a dar-se as mãos; sementes vingavam sob o fogo e a incompreensão quando muitos tentavam destruir qualquer fé dardejando o poder sem o olhar cristão.

Mas a memória era em vão; dela também saíam misérias e sofrimentos que grudavam em nossos pés, como pó, como se o que eu pensasse fosse inútil; até a seca medonha rondando ano a ano não matava nem secava nossos pés plantados em todos os cantos onde houvesse o sertão.

A fome tomou-me as mãos e ziguezagueou por lonjuras e direções, colhendo inanição e podre de corpos ainda vivos, servidões e desespero. Esperava em volta formar a conjugação da seca com a miséria e o sol embraseado crestando e limpando até os cardeiros da terra agreste. Rondava tudo que estava vivo, uma luxúria podre esperando entrar pelos seres e eivar a caatinga toda.

A seca remoía as pedras escalavrando o chão e, numa volúpia desembestada, me tomava inerte, crestando meu corpo. E eram vãos os pensamentos, tudo só servia mesmo pra morrer. O resmungo do seco estalando galhos, murchando as flores do xiquexique desde que rebentavam, desordenando peçonhas e animais miúdos. Liturgia esturricada calando a vida.

A pobreza e sua avidez esmagando vontades, pondo fraqueza no fraco, melindrando sintomas e urrando um canto de desesperança dentro da minha cabeça e entre os franzinos jeitos de sobreviver. A miséria, um ser tão presente, tangendo vontades exaustas e esfaimadas.

A mão dos homens segurando as minhas, nenhuma fé; ditames vomitados no meu corpo seco e na pele do sertão. Macambiras, imbuzeiros e silvestres exaustos propondo nem nascer e os homens segurando suas ganâncias e ardis.

No meio de tudo isso uma cruz tosca de madeira, um estandarte e o povo com o Beato Penitente passavam cantando benditos por entre as feras, ensinando os bons caminhos e a austeridade de ser diante do medonho do mundo.

Senti que sorriam quando me viram olhar para meus pés empoeirados e inchados. Da cintura para baixo, o cansaço entrou no meu corpo como uma lâmina cortando. Tive que sentar para não cair. Um jeito de poeira me tomou todos os sentidos e não senti mais nada. Apenas da espátula na minha mão tinha certeza. Pensei desfalecer. Não sabia do tempo.


***


Eles estavam no mesmo lugar quando acordei, continuavam olhando a estante, agora sorriam em frente à escultura em barro de São Francisco.

- Ele foi casado com uma santeira, ajudava com o barro, ajudava queimar os santos... foi de lá que saiu pelo sertão praticando a fé sertaneja...

E desapareceram no último compasso da música. Com eles fui junto ouvindo os cantos que os muitos carregando pedras cantavam construindo a capela de Chorrochó. Depois andamos o sertão cuidando cemitérios, ajudando no rendimento das igrejas e reparando as velhas. Era a multidão colocada na lonjura das vistas; seguíamos em orações caminhando por um nada que era de todos. A seca punha um cinzento até no céu... pareciam ajudar com a fé e a obstinação até a caatinga suportar tanta ausência.

Por onde passávamos só havia carcaças de animais, casebres abandonados e gente entorpecida pela miséria, mas com uma chama de esperança luzindo quando viam Antônio Penitente passar com seu bastão apoiando o corpo, seu menor tamanho, sustendo os sacrifícios e a sina.

No meio deles senti o sofrimento moer meu corpo, a secura gritar no estalar da caatinga e o ouvi pregar o possível; construir a caridade, o peditório de esmolas misturado ao bem fazer. Naqueles caminhos reformamos muitas igrejas construímos cemitérios, açudes e encontramos descaso e incompreensão de padres e poderosos.

A seca intumescia e devorava as vontades. Via em volta nos rostos e no minguar do corpo de cada um. Mas um caminho se punha em obrigação: seguir o Beato em sua fé.

Andei por todos os lugares que eles passaram, por isso o cansaço cada dia aumentava no meu corpo. No Bom Jesus, os fogos na sagração da igreja ficaram nos meus olhos. A pregação do Beato Peregrino colocava as palavras em nossos ouvidos e ressoavam nas capuabas dos caminhos de Cambaio, Caipã, Canabrava, Rosário, Massacará, Jeremoabo, Cocorobó, Poço de Cima, Sauí e Angico.

A tantos lugares chegávamos... socorristas trazendo alento, repartindo algum de comer, esperança e a riqueza pobre tirada do trabalho e da caridade em Canabrava, Cocorobó, Calumbi, Cambaio e Caipã, Urucu, Rosário, Monte Santo, Uauá, Cumbe e pelos afluentes do Vaza-barris; Umburanas, do Mota, da Providência e Rio Sargento. Gente de cada lugar, vinha junto... africanos e seus descendentes alforriados... os últimos dos kaimbés e kiriris, juntando hábitos e costumes, acreditando no trabalho, na fé e nas promessas do Beato de construir vinte e cinco igrejas fora das terras do Ceará. Enxergava tantos desiguais juntos vagando pelas dificuldades e pelo agreste.


***


Ouvia misturada a chorumela de Ditinha. O coice pegou de resvalo e ofendeu pouco, só um roxeado na canela fina, foi bem pouca dor, o tanto de servir pra aprender a obedecer e ficar longe de animal coiceiro. Resmungou o pai abrindo o baú atrás do fumo.

A menina de dentro da camarinha chorava miúdo, puxando, vez em quando, um suspiro profundo. Foi quietando até adormecer nos braços da mãe, segurando minhas mãos.
Sentia tudo misturado... fiz o caminho do Uauá todo com a menina nos braços doendo, apertando mais tristeza.

O estandarte era que primeiro puxava o povo em procissão, cada um levava sua imagem e sua gente, entoavam um canto de louvor a Nossa Senhora:

Oh, Senhora Mãe de Deus
Nas estradas nos levai
Para o bem e seu valor
Nas estradas nos levai
Todos nós em seu louvor

Vinha com a menina no colo acompanhando a penitência quando a fuzilaria começou. Os soldados atiravam em qualquer um, ignorando a fé desarmada, confundindo imagens num alvoroço delirante. A reação transformou a marcha compassada e devota em pura ferocidade. Vi muitos homens e mulheres atirarem-se na frente das balas, agarrarem-se às lâminas das baionetas e lutarem com chuços e pequenas facas, corpo a corpo gritando, “que a proteção nos proteja”. Os soldados fugiram diante da reação deixando estremeço, armas, fardamentos e o Uauá com as casas abertas e abandonadas, corpos de feridos e muitos mortos. Ali restou também um começo de guerra.

Com a menina ainda nos braços, desacreditando no que via, assisti à dor pelos mortos romper o ar naquele quase silêncio... os feridos sendo tratados com orações. Dali se esvaía a vida de paz e trabalho, no lugar de seus santos e cantos agora o que carregavam era mantimentos, armas e munições e a certeza do canto de morte matada.


***


Acordei todo sujo de pó e estradas. Era ela quem batia, trouxera-me uma comida feita especialmente e uma garrafa de vinho tinto. No descomposto que estava fiquei tentando uma formalidade qualquer. Desnecessário, parecia familiarizada com a casa; foi para a cozinha abrindo portas e gavetas, preparando a mesa, pedindo que me lavasse logo; uma intimidade posta, que eu não lembrava onde começara.

Para mim as horas passavam como um grande mistério e não sei quantas durou aquele jantar. Sei que havia um encantamento nos gestos, nos nossos olhares; sei que conversamos durante muitas garrafas que bebi, enquanto ela bebericava um único copo e me contava coisas da vida, da família, do namorado, do curso que fazia na universidade, de como gostava de crianças; só que não tenho certeza se me contou tudo aquilo naquela noite, talvez tenha sido no decorrer de muitos dias, porque também misturava o tempo enquanto percebia Anabel. Falava do meu trabalho de uma maneira tão bonita e me construía de um tamanho que desconfortava e envaidecia.

Não me lembro nem de quando foi que ela começou a cuidar de tudo no meu cotidiano... quando dispensou a diarista, quando começou a vender trabalhos guardados e quase esquecidos, pinturas antigas e algumas experimentações. Não sei como foi esse consentimento. Só lembrava de esperá-la quando acordava e buscava alguma lógica para o que estava acontecendo comigo... aquela sensação estranha que tirava a vida da ordem natural e me punha frente a frente com aquele trabalho denso e triste.


***


Acavalado era o jeito, uma casta de animais deprimindo o olhar que a feira punha nos muitos passando. Gaiola de passarim na custódia de gente grande e do menino derreando o andar. A farinha do curvo da mão pra boca cortava a ardência da caiçuma tomada de só vez. Bebida e bravata juntavam o ponto e davam rumo ao cano da arma, hora do patrão da tropa embiocar. O chumbo varreu o ar, destroço cresceu num largo, finou menino e passarim no meio dos atirados.

Não sei quantas vezes vi aquela cena se repetir na minha frente. A feira se enchia das mesmas pessoas, a mesma tropa do Barão passava ostentando a enormidade do viço, a gaiola, o menino acompanhado do pai, o punhado de farinha, os desafetos, o risco da morte triscando lento até desenhar sua valia entambocando o lugar. Fazia um silêncio e os instantes vinham para trás, quando o pai tomava o menino nos braços.

De repente, numa das vezes, um cantador esmoléu veio pelo canto da rua sendo conduzido pelo menino morto com sua cantoria, largando o primitivo do demônio que desabonitava o mundo:

ternantonte seu menino
tirinete sor Diabo
sestro das parte quente
sabugando nas metade

pelos meio riscador
e o cão nos couros
ridimunho do penoso
e o cão nos couros
rabiçaca da verdade
e o cão nos couros
pagando nas alvissas
e o cão nos couros
do morituro na laçada
e o cão nos couros
trocando vida por nada

ternantonte seu menino
tirinete sor Diabo
sestro das parte quente
sabugando nas metade

jura de peia
casa de cacimba fechada
jura de peia
luta de mato
jura de peia
nos arrudeios
jura de peia
cabueta remedado
jura de peia
diabruro
coiteiro...
êita erro!
jura de peia
embeiça a esbrega
e o cão nos couros
cumprissaio, enfieira
estufando o entojo
e o cão nos couros
fasta medonho
jura de peia
fouveiro ingiado
jura de peia
nascituro de pó
jura de peia
cão do sor Diabo
jura de peia
pro Deus dum só
cagando dobrado

- Ponha achega que o avaro é pecado - gritou de dentro da cantoria estendendo o coité quase tocando meu rosto. Um bafo quente e podre me deu nojo; o menino segurava no braço do cantador com a mão esquerda enquanto com a direita aninhava o passarim morto. Pela reixa da janela de uma das casas, uma criança com papeira persignava, repetidas vezes, como estivesse vendo o próprio cão. Um estalo forte num outro fraco e morno findou e pôs o frio no meu corpo.


***


Os gravatás se punham no seco do leito pedregoso da grota; decerto algum dia um rio ajudando acaudalar o Vaza-barris. O lugar tivera abundância de sustentar muito gado, hoje a estiagem lavrava seu jeito. A sequidão semeava a aflição em cada animal adubado com o cheiro da morte. O sol dava nas pedras tremeluzindo as vistas e o vaqueiro sossegava o aguilhão temendo derrubar a rês e plantar mais uma perda.

Olhava as cumeadas como se evocasse chuva; jogava na boca seca o punhado de farinha de bró e se dava à sina, fechando o embornal quase vazio; pensando pedir campo pelo mundo e desmanchar o ano de fraca partilha procurando as reses desaparecidas; penado com a doença da fome rondando a vida na caatinga.

De longe, sentia os pensamentos do vaqueiro Mariano, desamparado e cabisbaixo, tocar as idéias e enxergar a esperança. Nem ele sabia que procurava o Belo Monte.

Lá, quando chegou com suas três cabeças de gado, os dois bodes, o jumento, o cavalo misturador, a carabina chuchu, a mulher e os cinco filhos, viu as roças na beira do rio, os animais em quantidade que nunca vira, no cuidado de todos, pequenos e grandes, todos por todos. Na regra, quem quisesse rezar, rezava... e o trabalho se punha na vontade do melhor fazer. Um pequeno roçado, o lote de cabras, o farto num simples de viver, a escola, as rezas diárias e o respeito de todos tirando o mais rude da poeira do gibão. Ali plantou e entregou sua vontade.


***


Outro não sei o quê invisível me toma novamente a razão, e uma batalha se instala dentro do meu coração; viro o combate e o combatente, canto a derrota e a sagração. Um lugar, um vago lugar de emoção transpassa minha carne, ilude meu pensamento, e sei que traz um pouco de morte, e sei que quero um pouco de dor. Porque morrer só nas lágrimas não sustenta minha angústia.

Repenso a vida toda que vivi... vou pelo vago, não me era ali. Sei que reinvento gestos de amor e me finjo poeta para estar com Anabel e seu amor, o invisível me toma; mas me toma incompleto. O irreal está dentro mais real e, ao mesmo tempo, é o que não acredito ter sido. As Bachianas entram pelos meus poros, quadro a quadro reinvento minha vida. Do que me lembro? O que esqueço? Joana e os carinhos adolescentes que ensaio no pensamento para Anabel foram reais? Vilarina e a luxúria do seu corpo, foram? E Mariana e suas excentricidades? Isabel com a sensualidade à flor da pele? E Natália foi maternal? Elza e seus mistérios... Eulália, indecisa e amorosa... E Rosa com seu jeito embriagador? Foram reais? Amei, será, todas essas mulheres?

O invisível me possuía e se revelava num canto, escondendo a silhueta das prostitutas que andaram por minha vida. Era mais real essa lembrança que não tinha forma nem nomes? Ou eram apenas gestos de angústia, impregnados em mim, deixados pela vida agora, servindo para compor meu sonho de amor com Anabel? Vivia embaralhando a premonição de mais puro amor, mesmo mutilado. Essa era a minha verdade sentida.

Vivia, naqueles dias, da morte na vida do povo do Belo Monte e da vida do que já morrera em mim, renascendo na lembrança para fingir o amor por Anabel e me sabia fingindo o meu mais real. Olhava a flacidez do meu corpo no espelho; entendia as marcas e minha loucura rasgava cada cicatriz e se colocava sem a carne com vigor e suavidade; me entregava, em pensamento a Anabel. Só assim, revivendo, consegui viver.


***


Meus pensamentos me punham no Belo Monte e a dormência no corpo vinha devagar tomando conta, vagava pela desgraça de Eulina.

- A viveza do animal dá nos olhos. Vige! Exclamava Sinício enquanto soprava a tiborna - é animal veaco, sem lida. E continuou tomando a garapa, olhando o cavalo comendo a quixabeira. Leonino descarregava a mandioca do surrão e pedia ajuda pra suxar a cangalha e curar a sarnéia do jumento muito judiado nas ribanceiras e na passagem do sangradouro. Vinham da apanha no tabuleiro, passaram pelo Trabubu na casa de Carmela, irmã de Sinício. Lá ajudaram na limpa, na arranca e trouxeram a fartura.

- Esse animal bebe em qualquer parte? Perguntou o vaqueiro, sem maldar. A ofensa deu na brabeza do dono do animal; primeiro de mando entre eles e as armas estralejaram um tiroteio envolvendo até a mulher e os filhos de Leonino.

O mal falado assinou a sentença dos dois agregados e a expulsão sumária da família com os dois defuntos. Não teve acerto de contas. De lá só levaram os teréns e o jumento, nem enterro foi consentido fazer. O cortejo seguiu à boca da noite, a viúva com um de colo e os outros filhos carregando as redes com os dois mortos. Segui com eles o caminho, noiteiro daquela novena de dor e cansaço. No entrar na estrada do Calumbi demos com gente do Belo Monte e com o humano do sertão.


***


Perdidos na zelação do gado ouvimos ao longe a voz do sino marcando a viração da tarde. Joca deu ponto no virar a cabeça, em tento com o mato, moitedo de tingui pondo amarelo nas folhas, viçando seu veneno e o céu nuvioso prometendo chuva, aluímos pro descampado. O latido acompanhou o sinete de Lau enquanto Zé Severo vexado trancava o lado acabramando o espaço da rês tungando o aponto do rumo. Desperdemos do destino; agora era só o finar das horas; entregar o gado e receber a paga no confio do trato.

Daquela vida nosso melhor valor ficava perdido na vontade do dono de quase todas as terras que davam nas vistas; era ele quem escolhia como pagar. Gente igual, de fama e muito compadrio, era só o que demais tinha no sertão. Possuir nosso suor por via da polícia e dos alugados era todo dia. Por isso, depois dessa desobriga, tomamos nosso destino em de junto com o Conselheiro aqui no Belo Monte.

Antônio Breu passava a mão na cabeça do cachorro e contava aos companheiros em volta do fogo na vigília das horas. De onde estava sentia o olhar miúdo do cão acompanhando minha curiosidade. Era como se ele pudesse saber o que eu sentia.


***


Comecei ouvir sobrepondo ao silêncio pesado que aquele momento retinha a música cantada por muitas vozes. A sensação era a mesma, nem sabia como o papel-barro vinha parar pronto em minhas mãos, nem como chegavam aqueles seres, o relevo na tela que fui traçando os colocava reais na sala. Ana das Letras enumerava quem era cada um.

- É o nosso povo, trouxe pra conheceres... Caluta... Beleléu... Bendegó... Curuna... Benícia... Tifio... Anunciada ... Pé de Côco... Severina... Severo Dias... Zé Sereno...

Todos sorriram, olhando os quadros secando nos cavaletes. Contemplaram suas fisionomias nascidas das minhas mãos e voltaram a cantar sobrepondo um contracanto na Bachiana que começava a tocar na vitrola.

Um instante de explosão houve dentro do meu corpo como se, estilhaçado, houvesse me transformado naqueles seres. Agora, um suor misturado ao meu choro, juntando morrer e nascer num só. Uma seca rompendo minhas lágrimas e eles cantando e tentando aparar com as mãos frações delas que ressecavam antes das palmas. Assim me conduziram.


***


Um recém estiado céu deixava a manhã de sol entrar, mas as réstias pareciam turvas; sombras dançavam nas faces que lotavam a Igreja Velha contestando valimento mas, obedecendo à submissão do Beato à missão dos padres apresentados; pareciam arredados do divino que habitava o altar, baldando a fé de todos; eram vistos apontando castigos trazidos dos consistórios onde o Belo Monte era descrito nas conveniências e logros.

Os olhares dos que esperavam os sacramentos do batismo para os filhos eram de obediência embaçada. Entravam de tantos em tantos, tirados da multidão que esperava sua vez. O frade olhava sem entender algumas famílias trazerem, além da criança, uma imagem de santo ou santa e ficava espantado de como todos se dirigiam a Antônio Conselheiro. Olhava o piso da igreja sem entender a falta da divisão dos níveis para os abastados, os pobres; sem entender a falta de espaço no fundo da igreja para os devedores assistirem às cerimônias religiosas.

Na soleira da porta que unia a Sala das Imagens ao altar, assistia a tudo com um aperreio desguiando meu olhar. Parecia que uma névoa fina confluía para a penumbra da fisionomia das pessoas, tudo era tênue e vago. Ouvia um burburinho de vozes e choros de crianças abafados pelo latim, sentia o cheiro dos santos óleos e via os religiosos salgando inocentes com aquela fé sem irmandade, estranha.

Olhei para o fundo da igreja onde estavam os rostos que já vira antes na ponta da espátula. Ali estavam Ana das Letras com uma criança nos braços, ladeando Quilimério e Laurina; ao lado o Beato, fisionomias impassíveis esperavam sua vez.

Na medida em que se aproximaram, o frade olhou Antônio Conselheiro com desprezo como se enxergasse só dissimulação e loucura. Mas sua figura era mansa e contrastante ao jeito como o via aquele outro olhar. Ele rezava em voz baixa. Semelhava paz.

Naquele momento senti uma emoção diferente, era como se o Beato estivesse tentando me contaminar com sua fé; senti as lágrimas quentes me escorrerem pelo rosto. Nos braços de Ana das Letras, a criança recebia o sacramento. Quando a água benta foi despejada na sua cabeça, foi como se uma labareda de fogo queimasse a minha, e mil demônios estivessem me dominando. Um dolorimento laçou minhas pernas e caí para um nada, um escuro, um vazio sem fim.

Minha boca soltava um mormaço ao respirar. Foi o que senti quando acordei... estava debruçado na mesa e tinha a certeza de que estava só, mas não. No canto da sala os vi reunidos e encolhidos, rezando uma oração numa língua estranha, pensei latim mas não era; as palavras saíam da boca como se, ao choque com o ar, lançassem estilhaços de sílabas que vagavam até meus ouvidos.

Procurei por ela, já não estava ali. Ninguém estava ali. Senti um cheiro muito forte de suor... Na tela em cima da mesa apenas o papel-barro esparramado, nada havia feito. Silêncio, tinha vagado pelo mistério que consentia e me consumia, sentia no ar o cansaço me possuindo e ouvia um padre estrangeiro fazendo seu relatório ao bispo que dormia, todo mês, escondido com a mulher do juiz. Agora presenciava os comborços relatando ao barão o que o padre viu e o mesmo padre recitando em praça pública as prédicas de São Francisco de Assis.

Um homem gordo reclamava de não ter braços para o trabalho em suas terras, enquanto pagava os contos de réis ao miserável que vendia a filha mais nova para coitos e servidão. O interlocutor vestindo riquezas e soberba reclamava das listas de votações.

E os deseleitos seguindo em procissões, fome e silêncios procurando um caminho de validar a vida.


***


Muitas horas imprecisas e depois a presença de Anabel no pensamento. Tentava entender o que sentia - o amor que nascia na minha agonia. Fechava os olhos e tinha sonhos, me via ao seu lado como se amantes fôssemos num reino onde andávamos pelas ruas de mãos dadas.

Tudo do meu dia, quando não estava enlouquecido pelas minhas alucinações, remetia a ela. A pele macia do seu corpo era o centro do meu; me imaginava inventado por ela em vigor e harmonia. E acordava na minha realidade, velho, muito velho e enlouquecido, com respostas para a emoção e nenhuma para o corpo... amor incompleto, possível e profundo. Sabia de alguma forma tê-la e de outra, construía na mente somente para ser lembranças de enlevos e prazer.

Sonhava poemas com o que meu corpo ainda lembrava. Éramos, sim, neles, um homem e uma mulher. Sim, eu a amava enquanto aquela espécie de morte e vida se completava.


***


Era uma só voz que parecia ressoar como se fossem muitas, dizia ritmado, pungindo o silêncio dentro de quem acorda:

nossos pés
andaram ermos
e estradas
nossas mãos
limitações
e procura
nossas bocas
sede
e fome
cheirávamos no ar
cansaço
e pó
ouvíamos um Deus
ausente
e pobre
conjugando com poderosos
descaso
e dor
e mesmo assim
morremos
irmãos

Mal abri os olhos, e lá estavam todos à minha frente; fisionomias que eu não sabia de onde me eram familiares. Um rosto de mulher mais que os outros.

Ela me estendia a mão e se dizia Rita das Dores. Eu a enxergava agora em meio aquela cor de terra e de solidão; amornava, enrolada na colcha de merinó e na satisfação do corpo farto de amor, varando aquela noite de horas calmas.

Um ar silencioso, leve e úmido, próprio de chuva na estia, se instalou suavemente. Pela janela ela via o céu desnublando e esperava as estrelas sonhando com cada momento que ainda tinha por viver; nem notou o clarão do dia apagando a noite; pareceu que ouvia o estalo de cada pé de cana da ressoca que a chuva trouxe.

A boca seca reclamava pela água fresca da quartilha apanhada na biqueira do telheiro. Serviu e bebeu gole a gole olhando a tifanga armada no canto do cômodo, vazia de seu corpo acalmado depois de calor e bramuras espalhados pela noite - amor solitário encenado por entre o rendilhado - um queixume do corpo e da alma saciado pelas mãos, mentindo amor.

Ali se amava, ali muitos a possuíram. Vi todos eles como um bando de urubus voando em círculos, alguns chegaram a querê-la de fato. Via Rita das Dores esquecida naquela encruzilhada de caminhos vindos de todo lugar, subjugada pelos interesses dos abastados; donos das terras vestidas de canaviais viçados que a seca judiava mas nunca despia.

Era o lugar onde os caminhos se misturavam e se desmisturavam... gente do longe. Uns com a liberdade nos olhos, outros escravos da necessidade, mas todos carregando o peso da seca esturricando suas vontades.

Escravos libertos, vaqueiros, meeiros, tropeiros e gente de toda desocupação que tinha no mundo, chegavam sempre procurando ou escondendo alguma coisa; por ali passavam e eu os via, todos em círculos em volta da carne tenra da mulher.

Era, naquele sertão onde a caatinga começava a adensar, a cacimba que mais demorava a secar: a de Rita das Dores, via seu corpo, perene para a luxúria, deitar com todos, sem enlevo algum; desdava-se naquela hora como se cumprisse uma sina. O encanto só encontrava na solidão das noites, quando copulava às poucas chuvas, algumas estrelas, qualquer réstia de luar ou um vigor de mormaço; assim esperava a vida no seu prazer solitário.

Sentia o enlevo: a vi sem lágrimas esperando embuchar de cada homem com quem deitava. Esperava os filhos que seu ventre teimava em não gerar e que sua velhice um dia iria reclamar.

Vaguei junto com Beleléu, juntando as cazumbas que a seca ia pondo no chão; o salitre abundante naquelas terras cuidava quase curtir o couro.

Ia a pé puxando os dois jumentos encangalhados. Num, entramelado, levava dois surrões com ossos, cabeça e chifres; no outro montava uma sobre as outras as peles ressequidas. Sentia forte a sensação de vida indo buscar na morte o pão.

Com os urubus ele dividia os despojos do gado, o mau cheiro e a secura do lugar. Pra si guardava a inveja dos vaqueiros andejando lugares, merecendo tanta atenção.

Roedeira dava no seu peito, amargava, não havia jeito de abrandar. Andava em roda do quixó, cuidando com o rabo do olho, maldando cada gesto que ela fazia, era sua danação e seu mais bem olhar. No lugar só achegava gente novidadeira, trançando boatos, com um jeito de leriado que ele corejava com entojo. Não podia um desatino de maltratar esses uns. Entrava nos seus pensamentos, seu querer, remansando de amor.

Querelante só pra si mesmo, assim ficou, fingindo lidar com os jumentos amarrados longe por causa do cheiro. Rodeava a cacimba muitas vezes antes de tirar a água, cuidando o olhar até ser notado por Das Dores. Quando ela olhou, parecia enxergar a mim não a ele.

Pensei ter sonhado aquelas fisionomias e aquelas vozes - pensei ter estado com eles no meio da desesperança e assim, no sonho de cada um deles, filhos pra velhice e a quentura dum querer no rude vaquejando restos de vida pela caatinga.

Não sabia se dormia ou se estava acordado. De algum modo, novamente estive entre eles enquanto moldava o semblante de cada um. Estavam lá no papel-barro, no cinzento do ar triste, tomando conta do meu cansaço e das notas da música.


***


A tristeza por Anabel. Nem lembrava de quando me contou do desquite, do filho perdido e da culpa que sentia por tudo isso. Ela chorava uma emoção de tristeza - diferente de quando viu um de meus trabalhos - que continha tanta nostalgia. Parecia parir toda dor que eu embalava, calando a minha.

Como não a vi por muitos dias pensei: teria me contado coisas que não queria? O bilhete que encontrei na cozinha com um volto logo esclareceu e me mostrou o quanto eu iria sentir sua falta. Parecia que uma parte de mim tinha sido arrancada sem deixar cicatriz, um mais profundo. E foi assim que, naqueles dias, na sua ausência derramei a poesia das minhas lembranças, enlouquecendo a loucura.


***


E eles vinham aos poucos e me levavam para a lembrança de suas vidas me dando as mãos e contando:

– Sou Maria de Sassá, trocada em menina por favorecimento no dolo do pai com um poderoso do lugar. Vivi alguns anos nas terras do Mutacará, existindo só para a boca e a conformação, longe de qualquer tipo de afeto, servindo com o tempo todo da vida e com o viço que o meu corpo ganhava nos anos.

Afora a boa lembrança já quase apagada da infância, rezas e brincadeiras que restavam embaralhadas na saudade, meu único bem lembrar foi o dia em que o Beato passou e deixou muitas palavras ressoando no meu pensamento. A ele, fui apontada como sobrinha, sozinha no mundo, acolhida ali.

Como se nascesse na infância de novo, nunca me lembrava de ter visto na vida um homem de Deus que aparentasse o comum dos homens; que falasse com simplicidade da fé, nas pessoas e no alcance que qualquer um tinha com seu trabalho.

Na secura dos dias e da caatinga, a pregação do beato foi deixando nascer outro tipo de conformação e o mesmo que alguma alegria nas pequenas coisas do meu todo dia.

Num deles, aconteceu de repente: lidava com a borrega no cercado quando percebi vindo de toda direção, um enxameado de homens bem armados atirando pra todo lado. Foi o tempo de me agachar saindo das vistas. Dali, assisti ao bando confirmar a punhal todas as mortes, uma por uma. Exceto o grito de surpresa e alguma reação pouca, o que ouvi foi um comando para que todos saíssem e esperassem no mato. Daquele que falava, só via o tronco emoldurado pela janela; as mãos lavravam um pedaço de pau como se brincasse naquela hora; parecia fazer uma cunha de madeira para cravar no peito de Quelém; aquele era só com ele, dizia a voz profunda e pungida. Esperei tremendo o corpo todo.

Ouvi a mesma voz gritar para Quelém: - seu filho duma égua! - Que tirasse a roupa toda, ficasse nu que iam ter uma conversa comprida.

De onde estava, mal respirava com medo de ser descoberta, mas via por entre a cerca; meus olhos gastavam a coragem que parecia não ter; iam de ponto a ponto da cena ouvindo a voz ser obedecida por Quelém, nu, encostado no gaveteiro, abrindo a gaveta e enfiando as partes dentro, obedecendo.

Quando achei a fresta para melhor ver, as costas do poderoso sangravam nas picadas da lambedeira imputadas pelo chefe daquela chusma. Com o orgulho massacrado pela firmeza das ordens dadas, não obedecia sem entender. Tentava falar alguma coisa, argumentar, saber o porquê daquele ataque e era imediatamente calado pelo aço picando as costas.

Até então não tinha visto Lineu de frente, agora via fechando a gaveta, esmigalhando no canto os testículos de Quelém; aproximou-se do móvel pelo outro canto onde cravou as pequenas cunhas no encaixe da gaveta, batendo com a mão de pilão até lacrar. No outro canto gemendo a maior das dores, Quelém parecia um animal. Só aí pude ver melhor seu rosto mirrado num olhar frio e impassível, esperando os gritos ressoarem para começar a falar abaixando a voz.

Pausadamente, contou quem era e por que estava ali; deu o nome da mãe violada e morta, com detalhes até de como ficou cada corpo estirado no chão, do pai, dos irmãos, da avó sangrada doente dentro da rede. Repetiu imagens e palavras nunca esquecidas durante mais de vinte anos; o quanto esperou a vingança, o quanto foi difícil depois de saber onde vivia Quelém como homem honrado depois de abandonar a vida de bando; agüentar os dias todos de preparar seu ódio para o dia e a hora. Essa chegada, sem pressa, ia falando lentamente que não o mataria. Ia deixar para sua escolha como seria sua morte, única benevolência na vingança sonhada.

De onde estava, vi quando ele fincou a lambedeira no móvel ao alcance da mão de Quelém pálido de dor. Sumiu das vistas até recender no ar a fumaça com cheiro de couro queimado. Apareceu mais uma vez no vão da janela, desejando a Quelém toda a dor do mundo - se resolvesse usar o punhal sem corte ou se preferisse que se matasse antes de começar a queimar ali mesmo- e que o inferno lhe fosse tanto quente quanto eterno.

As labaredas quase tomavam a casa toda quando Lineu ainda jogou o pote d’água no gaveteiro para que ele queimasse por último saindo correndo por entre as chamas. Parou no terreiro e se benzeu sem se virar.

De onde estava, me enchi de coragem e, num ímpeto, segui ele de longe pelo meio da caatinga.

- Com Lineu, um dia levamos nossas vidas pro Belo Monte. Terminou de contar.

Eu estava com eles quando entraram no santuário vazio àquela hora; rezaram entrecortando silêncios num jeito de fé, querendo viver uma vida diferente.


***


No fora do tempo me vi na casa de João da Dica acompanhando ao longe - apequenado no caminho - a figura do filho mais querido. Vinha com a mala nas costas e um jeito de mundo no andar.

- Cala esse cachorro, meu velho! Pediu ela quase gritando no descontrole da alegria. Os dois viviam naquele ermo desde que nasceram. Ela disposta na premonição e nas rezas que fazia atendendo todos que ali batiam. Ele, já encurvado pelo custoso da vida, esmorecia com qualquer esforço; gritava com o cão magro e barulhento e punha brilho nos olhos embaçados pela cegueira se espalhando, entendendo ser o filho chegando por fim.

A poeira remoinhava em volta do meu corpo parado ao lado dum monturo, me entrando pela respiração sem turvar as vistas. Via como se estivesse mais perto deles, quase rente àquele encontro. Convivi nos dias, dividindo o muito que retiravam do quase nada que tinham para repartir. Dica benzendo os dois homens restados em sua vida com a umidade de sua fé e os galhos de folhas secas, ouvindo do filho o melhor do mundo por onde andou.

Depois a partida. Eu via a cobra andar no mato e ouvia a insistência de Dica com o filho para que demorasse mais um pouco, inventando um agrado qualquer disposto num fundo de baú. Entendia o trajeto da cobra plena de veneno e o momento que ela cruzaria o caminho, e vi a sabedoria do olhar da rezadeira olhando o meu, livrando o filho.

Ela estava ali, na minha frente, dentro do papel-barro, nascendo das minhas mãos.

Era diferente, atormentado e conformado, vivendo junto com aquelas pessoas, sentindo a alegria de Dica livrando o filho da picada da cobra para vê-lo seguir o Beato.


***


Anabel entrava e saía colocando ordem ao meu redor e sua beleza em meus olhos. A agonia no meu corpo se contentava com o que idealizava sem tempo e nem idade. Precisava de algum tipo de lembrança e escrevia meu amor sem gestos. Doía e doía.

Dei de não deixá-la entrar e ficar sentindo sua presença do outro lado da porta tentando me ouvir chorar baixinho. Ela me pensando em um momento de muita emoção, e eu entendendo tudo o que desentendia. Mas, gostava de sabê-la ali.

Parecia uma força dolorida me conduzindo por onde já andara; sentia como se toda a emoção vivida com minha arte e meus amores tivesse sido reunida para um tempo sem tempo em que estava vivendo. Vagava minha lucidez e loucura como coisas límpidas, o amargo de indignação, que me pôs em tanta luta... era como se fosse o meu não-real. Iria fazer uma travessia no menos animal da minha tristeza e dor. Sabia, mas não sabia. Não sabia, mas sabia.

Dei de reler tudo o que juntara na vida sobre a loucura, eram dias e dias somente de leitura tentando entender a minha, como achar maneiras de lidar com aquilo; vidas reais nascendo da minha arte; eu me transmudando em participar de momentos delas, só conseguindo descrever aqui tudo o que via e vivia com eles, na vida deles, na forma de falar deles. Vidas nascendo, irreais, do meu sentimento; Anabel sendo amada e lembrada na consumição da poesia, me inventando poeta para possuí-la mulher. Era como se lesse páginas em branco, um vazio. Sentia como sendo lido.

Qualquer coisa que tentasse ordenar me colocava frente à ausência do tempo que me tomava. O papel-barro surgia na minha frente como se saísse pronto da minha emoção. A espátula colada como extensão do braço, abraçava as formas e a cor de terra punha seu perfume no meu corpo... Depois, o cheiro abafado me queimava as narinas, e lágrimas tentavam apagar minhas chamas. Era a loucura com sua lucidez me libertando.

Um cansaço me derrubava e o normal se punha de novo na casa, a presença dela me acalmava e me confundia mais, levando-me a recordar as mulheres que tive na vida. Lembrava e ia reinventando a sensação das minhas mãos acariciando Anabel; o calor do meu hálito queimando sua pele e minha língua dando-lhe frescor quando a beijava inteira sentindo seu gosto, vestindo-me de seu corpo, de seu cheiro. Lembrava muitas mulheres para poder inventar esse amor... pedia emprestado os melhores momentos que trouxe da vida para, de alguma forma, vivê-los com ela.


***


À minha frente os contornos do rosto de Linoro. Por suas mãos, no Arraial dos Vaga-lumes, fui levado ao casebre; os dois animais, pele e osso, lambiam a terra e devoravam o próprio pêlo em movimentos mortiços. A criança restava no chão batido e apenas a mãe, de cócoras, com o choro infirmado pela fome, espantava as moscas varejeiras. Os outros da casa, junto à cacimba quase seca; esguridos lambiam o couro esticado nas varas em curtimento. Nem dor havia ali; pareciam padecer numa ausência de qualquer sentimento, de qualquer vontade; apenas pude sentir no grito da fome o íntimo da morte.

Vi, conduzidos por Antônio Conselheiro o que sobrou deles ser levado para o Belo Monte.


***


Morria todos os dias na sensação de esvaecimento, a ventura me reinando e me condenando. O sangue vinha de longe, sujava a memória que não tinha e limpava a que me havia. Era a dor atilada confundindo a solidão de tantos me ajudando a chorar. Por dentro fitavam-se, olho no olho, cada um querendo predominação, cada um com sua opressão e soberba rosnando. O Diabo e Deus trancados na vida, se fartando nos embates e morrendo juntos, devagar.

Clamava por Anabel - me dê as horas da tua presença, sonha meu corpo, tira a dor dos meus restos, da minha angústia; chora comigo para sempre!

Sentia, verso e controverso se misturando à urna viva. Sepultava toda a loucura. Era o povo do Belo Monte quem levava o caixão.


***


Na coberta, Leonila mexia o tacho fervendo a goma; Simeão de Caieira trazia amarrados de casca de angico e cuidava o fogo. Os filhos dividiam as tarefas - um carneando e coureando, outro tirando o relho e o mais velho carregando as tiras para o aloque - utilizavam os próprios fueiros da carroça nas forquilhas fincadas no terreiro, desde os tempos do avô, para fazer o jirau.

Na hora da goma pronta Leonila deu o sinal para a filha trazer as tiras de couro para dar fervura e fazer a sola. Na cozinha a mais nova fervia o chá de mangará para a tosse da mãe. Num canto, embaixo do banco, o menino cego de nascença abria as favas do feijoeiro... e assim a vida corria para eles no Belo Monte, quando apareci ali ferido de faca com um garrote de embira estancando o sangue.

Vim descendo a Favela por nenhum caminho, desprevenido de rumo, sem o de comer. Alapado durante o dia e cumprindo marcha na noite. Nenhuma pergunta fizeram, recebi uma taiada de carne e a farinha; contei do samango me furando e de como acabei com ele. Limparam a ferida banhando-a com manjericão e, com um lambedor que me deram, em pouco a livuzia foi embora e a leseira veio derreando.

Acordei aos cafus e no silêncio da casa vazia. Quis levantar, mas o corpo desobrigou no cansaço, ali fiquei com os pensamentos, sem saber direito onde estava e sem esforço para continuar fugindo. Ao longe, ouvia um canto de igreja; pensava que aquela família poderia estar me delatando, mas o que sentia era uma calma se pondo em volta.

Quando me pus de pé, Simeão de Caieira já estava lidando com o couro em cima do toco e as cintas amontoadas dum lado. Mal me viu, começou a furar e sem falar uma palavra, demonstrando apenas com jeitos, esperou ouvir minha história. Contei estar fugindo do mando da justiça por conta dum acerto de contas quando ainda era da polícia, no agreste pernambucano, sem enumerar direito o lugar, nem o porquê e nem como matei Alceu de Maria Mendonça.

Ouviu tudo enquanto furava o couro ritmando o bater do martelo na sovela como se a ferramenta traçasse um risco na tira.

Com a voz calma levantou, entrou na casa de onde trouxe a vestimenta completa: chapéu de couro com o barbicacho de tira sem trançado, gibão, guarda, mombucabo, perneiras e matolão que me entregou, olhando minhas vestes arruinadas e rotas. Contou onde estávamos e pediu para me levar ao Conselheiro, lá no Santuário, antes de continuar fugindo.

Da conversa com meu Pai Conselheiro encontrei o caminho e meus temores. Com Simeão de Caieira, aprendi a lidar com um ofício; o traje que ganhei foi feito de irmandade e me abraça assim, na lida e na crença de sermos irmãos.


***


Quando comecei a escrever os versos?... Não saberia precisar isso e nenhuma importância teria lembrar. Mas, me consumia sonhar o vigor calado de meu corpo; amá-la quase silenciosamente no dia-a-dia da nossa intelectualidade e ternura. Ia me enlouquecendo, como se estivesse preso num emaranhado de tempo, voltando a ser o que já fui para amar uma mulher que não amei plenamente como amava... era como se fosse eu mesmo quem tecesse as malhas do presente, usando os fios do passado, meu e dela, desmanchando lembranças para minha teia imaginária.


***


A vereda íngreme serpenteava paralelamente à estrada e fazia uma aberta antes de dar no batedor. O lugar agüentava a seca; acende-candeia, imburana, jatobazeiro, pau-branco, cabaceiro, jurema e catingueira; dum lado o alúvio, secado de resto; do outro a tiririca e a babugem tomavam conta, fartando em qualquer brando de chuva, reverdecendo; na declividade vicejavam: capeba, mastruço, caroá, muçambé, mandacaru, janaguba, macambira e japana, os remédios da terra.

Lugar em que até o barbatão chegava atrás das pasteiras, dando barroada no mourão e esteios, assustando os meninos botadores de bezerro. Breado, o burrego gemia; as mulheres faziam a purga de sementes; juruti e até corrupião batia canto. Cercando todos os lados, a cansanção escorava.

Próximo ao lugar de abate, era comum ouvir choro de gado e desde longe o grito dos vaqueiros: - ... ecô... ecô...! - vindo pela costaneira com a cruviana, batendo dos lados, dando cabimento ao embretar. O lugar, entrada de fosso feito na esperteza de Macambira, era também a trincheira dos quantos criando gados e miúças, tirando fartura do leite no puxo de toda manhã. Foi a derruba dos primeiros que chegaram, sido roçado, agora era o curral.

Meu corpo lacerado por tantos suplícios parecia estar se flagelando com o que imaginava ver ou que via, sofrimento e sujeição. Um Deus acreditado que me parecia amargo com seu livre arbítrio, semeando um sem jeito, com a seca, com a sina de agredidos e agressores; incompreensão, vaidade, o bruto assim tornado pela ausência ou ambição. Todos irmãos e andando suas verdades, algumas em seus deuses, algumas em seus demônios, que decerto semelhavam e tinham contido outros deuses e demônios em si mesmos.

Estava sentado no meio das cabras, vendo o trabalho render; uma rês enrelhada no mourão tentava se soltar; um menino empachado fazia o fojo esperando a caça. Pensava dentro da loucura - o pensamento dentro do pensamento - quando ouvi o primeiro som do sinete e o grito, era o ponta chegando ofegante contando:

- Desde que a mãe-da-lua cantou seu agouro depois da noite velha, cheirei o ar e o instinto me pôs nas brenhas e vi... vi amanhecendo eles pelo Cambaio, arenguei uns tiros, botei catinga e aviei avisar.

Ali esperei todas as mortes com um cão ferido nos braços e senti frio, sede, me senti nenhum, ninguém, dentro duma fornalha e meus deuses e demônios rilhando os dentes uns para os outros, fazendo escaldo com meu sangue... era a guerra me possuindo.


***


Vinha pela grota tateando com a vara as paredes de pedra. Seus olhos cegos enxergavam um brado de concórdia que punha no canto, estalando solidão, e a voz firme alastrava inteiriçada de perdão:

Recolham as armas
E salguem os punhais
Que a aurora seja perfumada
E a lua nasça nos quintais
E nas ruas corram proclamas
Desobrigando os leais
É chegada a hora
Da confiança nos beirais
Uma nova lei escrita
Nas canções dos desiguais
Deixando o amor nascer
Na verdade dos mortais
Recolham as armas
Selem os sinais

Não sei como o segui por entre as tropas e em meio aos casebres do Belo Monte, tampouco quantas vezes ele, com sua cegueira, subiu na Igreja Velha e tomou o sino, gritando a estridência do seu verso. Seus movimentos cegos punham a palavra do seu canto nos ouvidos da caatinga surda regurgitando morte. Andei junto às horas todas da madrugada; ele ia ora sussurrando, ora gritando o penetrante da sua visão nos ouvidos dos homens e da guerra. Sua demência ninguém ouvia. Tremente, gritava nos ouvidos dos soldados, dos homens da Guarda Católica e somente eu ouvia seus versos.

Acompanhava o cego e ele não me via. Ele acompanhava o movimento da guerra e a guerra não o via. Só estralejava entre nós, marcando a loucura do momento, esvaziando seus rituais.

Aquele canto de concórdia gesticulava dentro da minha cabeça e o ar me faltava nos pulmões; precisava me sentar. De repente, a calma veio daquele canto sumindo no ar.

Estava ao lado, assistindo Mestre Faustino - mestre-de-obras e talhador de altares - cumprindo sua arte com o formão preso ao pulso por uma tira de couro; parecia usá-lo como se ensinasse entalhes. Também me punha moldando o papel-barro, garantindo nos movimentos sua atenção. Nossos olhares sorriam cúmplices, descobrindo as garrafas vazias no meu tempo e no dele, parecia que descumpríamos uma lei e cumpríamos apenas nossa sina, embriagando-nos para a beleza.


***


Lá fora, já boca da noite, começava o terço na latada; as ladainhas, os cantos benditos. O povo e seus santos, uma harmonia conjugada com a dignidade nascida entre famintos e andrajosos, sandálias de couro cru e a Bandeira do Benvirá.

O ar cansado punha a dor nos meus braços, e cada um que passava no caminho me tocava; o bócio subjugava os rostos magros secando aos poucos. Eram mais de vinte esmolambados e famintos gemendo seca e descaso. Seus bornais desprovidos, colados nos corpos vazios, presos no esturricado da caatinga onde só restava o pó, finando o horizonte vermelho-cinza. Iam os mal- aventurados da secura de Masseté procurar o Belo Monte. E tinham fé, sendo a própria fé sem servidão.

Em meu corpo, cada um que passava punha um pedaço de sua solidão, deixando junto um resto da perseverança. Acompanhei cada passo até o Barracão de Distribuição de Alimentos e chorei com eles aquela tênue esperança derramando alegria.


***


No meio do esturricado me vi, caatinga renegando vida em volta da minha solidão; um silêncio resmungado; o barulho de meus pés no pó e a cantiga do cego correndo dentro dos meus ouvidos parecendo um sussurro, como se ele cantasse somente as consoantes das palavras. Astuciava espertezas, aparecendo ora na minha frente, ora pelos lados. Punha um ronco, antecipando cada movimento como fosse bananeira gemendo cachos; ora aproximava, ora pulava pra trás.

O fobento me apontava o dedo e desapontava rindo, esquivançando. Seus olhos - um já totalmente branco da doença e o outro vazado e murcho dentro da órbita - enxergavam minha pessoa e meus pensamentos. Ria, ria muito. Num momento retirou a viola do saco e pôs-se a cantar sua latomia. Seu olho inteiro mudava e desmudava de cor o tempo todo, fazendo os galhos secos das árvores mortas do caminho estalarem como se fossem fogos e saudassem o próprio medonho.

O meu pensamento queria ter Anabel dentro e ela não ficava. Sentia apenas a assuada do cego em volta e a quentura do ar abafando minha vontade. Numa pequena distância, ele feria as cordas, tirando só estridências e doidejos, fazendo um movimento para frente, quase encostando seu rosto no meu e, para trás, se colocava aprumado no mesmo lugar. Sua voz se despedaçava e se juntava de novo na melodia a minha volta. O canto que ele cuspia no meu rosto era confuso e incompreensível, mas grudava na minha pele como uma gosma. Como saí deste torpor não sei, mas dele ficou um cheiro forte e nenhum entendimento.


***


Sentado na única sombra da paisagem ouvia Sosó contar.

- No decurso da vida só lidei com desafios. Vivi destemido em meio às emboanças e à violência da profissão, indo de um lugar a outro, como cigano sem estada. Os muitos que matei me puseram raiva e ojeriza pra gastar com as menores coisas; um bicho do mato o que eu era. Matando gente no mando dos outros, andei pelo Cariri, por dentro da Paraíba e no entorno do Juazeiro. Estraguei muita moça nova e nunca andei enxameado, meu trato era só. Eu e o diabo correndo dentro das brigas do mundo, coisando o que a covardia punha nas nossas mãos. E era um tanto de homens poderosos me pondo em vingança, acuando a vida dos outros por via da minha valentia. Eu era as balas e o corte das facas que sagravam o mais forte.

Nunca plantei fava nos orifícios de nenhum animal. Só fiz isso com o primeiro que matei no Mamuquém - um tal de Ariosto - por via de ouvir dizer da simpatia, sangrei ele a mando duma desonra de família; foi rente a um barranco... enfiei as sementes nele todo e enterrei ali mesmo e de lá não saí; fiquei tocando pife, caçando punarés enquanto esse um servia a terra. Quando desenterrei e comi as favas catingando o podre do morto, senti o diabo fechando os mistérios e me pondo encruzilhadas.

No segundo que despachei ficou feita minha fama; virei João Sosó e o mundo virou atrás de mim. Matei de tudo que é jeito e por todo tipo de paga, até o dia em que risquei o caminho dum tal de Quinzim do Mota. O balaço deu no meio dos peitos; quando me aproximei, conferindo a pontaria, senti a perfumação do ar em volta e ouvi suas últimas palavras. Falava do Belo Monte num brilho de olho diferente sem o embaçado da morte. Fiquei com o cheiro dele passando rente, me empurrando um rumo.

A mulher e os filhos encontrei cortando palma... gastei todos os cartuchos que tinha. Pela primeira vez pensei na vida e apertei o encourado contra o peito lembrando a mãe. Desse dia, tudo que fiz foi andar o caminho até o Belo Monte.

Enquanto me contava sua história acompanhava a abertura das trincheiras. Foi por causa delas que ficou conhecido no Belo Monte como Sosó da Trincheira e era ali, no ofício de ensinar a lida com a surpresa e as armas, que purgava seu passado.


***


O susto quase me derrubou do animal. Zé Sereno passou como um risco acamando cipó atrás da rês desgarrada; os ramos abriram no momento de ele cabear o animal, e o barulho do farfalho de mato e das pisaduras na terra deram o susto. Com o horizonte nos olhos me refiz; era o tabuleiro, última etapa.

Manoel Redondo apeirava a canga, regulando o cambão. Divino cuidava a arriação, ajeitando o caçuá com o bocado na mão bilando a arma da cinta do cozinheiro, quantas vezes cobiçada.

Entre eles, eu estava num cavalo cansado de légua, pronto pra cair de borco, com a cincha frouxa; devinha como os vaqueiros, andando cansaço, atrelado ao destino deles. Não sei como desmontei e arrumei o prumo, o arreaz e o peitoral, escanchei e segui aboiando igual, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida.

Na tremura do chão vindas no olhar que o sol inclemente punha à nossa frente, as figuras foram se formando: era gente de todo lugar do sertão, com jeito de lonjura e precisão. Traziam tudo que conseguiam carregar. Muitos venderam tudo que tinham para se juntar ao povo do Belo Monte e defender o Conselheiro.

Sacas de carimã, feijão e garajaus em lombo de jegues, carros riscando o chão com o peso da madeira que carregavam; potes com mel de jati e manteiga do sertão, pareciam camboeiros. Foram se juntando pelo caminho, vendendo tudo o que tinham e se destituindo de qualquer outro apego que não fosse o da luta pra tirar dos poderosos o bordão da injustiça.

Nesse dia, chegaram ao Belo Monte mais de duzentas cabeças de gado e - cantando hinos - igual tanto de cristãos. No meio deles, vi o cego incriado, me acenando como se me pusesse rezado-de-cobra ressumando ardis e me mandando dar queixa ao sem jeito.


***


Porvindouro sege, só tenência serviente basta aos tempos do Cariri empistolando bando, desvivendo no espinhento chão cedido pelo ladravaz impondo couto. Agora, o danisco vem montado em tropa, e o Belo Monte vira a batalha.

Assim, dizia aos demais sentados a sua volta, na margem que as lavadeiras usavam como coradouro, Manoel Quixadá aludia aos donos das terras de onde os parentes, maioria naquele ajuntado, vieram. Homens acostumados a lidar com o gado na caatinga seca, vivendo o rústico espantoso da submissão e, agora construindo o lugar onde todos eram por todos, armando-se de parcas armas e coragem para sair plantando nos caminhos a ferocidade solitária de suas verdades.

A arma na minha mão queimava os dedos; os cartuchos que as mulheres me deram pesavam parecendo chumbo no embornal; as flores dos faveleiros derreavam pelo caminho do piquete. Ao longe, em formação, o comboio de mantimentos pedindo ser atacado. Tiros desgarrados soavam esparsos ecoando por entre homens e animais. Manoel Quixadá pôs as ordens e atacamos o flanco contrário, esparramados em leque. Os companheiros atiravam compassados, em boa mira, na economia de cartuchos. O cerco durou menos de uma hora... a debandada dos soldados deixou os animais em alvoroço.

No longe, um soldado atingido na perna gastou toda a munição da bruaca da mula morta ao seu lado. Atirava a esmo como se estivesse enxergando o alvo. Meu corpo suava frio e o gatilho pedia a pressão do disparar. No campo da mira, o ferido tentava levantar para fugir. Senti meu corpo se esvaindo numa sensação de desfalecimento: primeiro as pernas, depois o tronco, a cabeça e por fim os braços, e, nesse instante, ouvi o tiro e me senti caído na sala empapado de suor e culpa.


***


No que havia de ir contando, falava das perseguições, fosse louco, fosse o assassino da mãe e da esposa preso sem contestar valor e outros crimes que nos volantes corriam o sertão; falava do bispo proibindo pregações pelas paróquias. De certo, quem mais sabia da vida do Beato Penitente andejando os ermos era Anunciada, lembrando no jeito de encher os cartuchos o merecer dos passos do beato:

- Os pobres andavam junto com ele; muitos, os mesmos que estão aqui na igreja resistindo, garrados nos alicerces dessas paredes e nessa fé que nunca há de ruir.

Agora ele nem sai mais do Santuário. Fica nas rezas e nas penitências, e vai fraco sonhando a igreja do Bom Jesus e escorraçar os agressores.


***


Da linha que via a boca do canhão sobressaíam alheados os soldados que manuseavam a máquina plantando morte e destruição. O graduado a cavalo igualmente desatento, nem via os companheiros tirando a farda e se embrenhando no transpasso da linha de fogo, mesmo à luz do dia.

Eram os chamados depois dos benditos e ladainhas a que assisti naquelas noites. Depois das rezas e das prédicas, juntavam-se todos na praça da Igreja Velha e punham-se a entrecortar os cantos com o nome dos parentes que julgavam estar na tropa sitiando o Belo Monte. Cantavam o nome do parente, do pai, da mãe e do lugar onde nasceram. A noite engolia o chamamento e desengolia as vozes na amplidão e nos ouvidos dos agressores. Parecia um sobrenatural gemendo nomes.

Muitos se juntaram às suas famílias e parentes, e muitos desertaram, imaginando lutar contra bruxedo de almas do outro mundo. Arribavam em pequenos grupos, largando armas e pertences pelas beradeiras do acampamento, parecendo bichos que andam na noite. O calundu não deixava a tropa dormir. Pareciam, aquelas vozes, colocar caninga no ar, chafurdando o íntimo de cada um.

As ladainhas eram cantadas por todos, a maioria mulheres e crianças. Os nomes por Altina e Rita das Dores. Era a fé em armas estendendo o braço da fraternidade pra lutar nas batalhas.

De brusco, me senti puxado pela mão. O cego me chamava para fazer coro e gritava sua ladainha numa voz gasguita e irritante chamando o nome dos graduados de ambos os lados, soltando junto com as palavras um labareda de fogo como se estivesse sendo ouvido e esse fosse o jeito de desvelar o mundo.


***


De onde estava, misturada, ouvia, intercalada aos tiros, a voz de Anunciada contando os anos passados, a construção da Igreja Velha, as pessoas chegando de todos os cantos; das securas pro lugar santo sagrado, que o frade nem quis entender, por ser lá o Deus dele, o dos ricos.

- Primeiro as gentes de Jeremoabo, Uauá, Cambaio, Rosário, Chorrochó e Curral dos Bois... os camboieiros também levavam a notícia do Belo Monte nascendo.

Achamo a fartura - dizia ela - no meio do seco, das pedras, dos espinhos, das ipueiras e veredas. Cada um sabia de um tanto; um tanto que era de todos; muita farinha e legume de caroço, criação de chiqueiro; no rio corria água; cada tapagem era uma festa, fartura que ninguém maginou conhecer; fome cabadinha num canto e nóis na fartura simples da vida; era sortido de boi e de bode e irmão ajudano irmão.

No dia de feira, vinha gente de todo lugar negociar e ver a igreja construída de pedra, cal e muita fé. Ninguém punha preço de cobiça em nada; o justo era nossa semente.

Parecia rezar uma ladainha, falando o nome de quem o combate já tinha engolido e a rua onde viveu cada família

- Beleléu da Rua dos Caboclos, Zé Sereno do Campo Alegre, Alcibíades da Rua da Caridade, Pedro Cacho do Cemitério, Anacleto da Professora...

Nem a dinamite estrugindo o ar calava Anunciada. As pausas que fazia era quando a tosse, vinda do Santuário, enchia a igreja quase em ruínas.


***


Macuco era vida miúda; pensava ser passarinho, voando raso perto do tabocal; nem sentiu o estalo da socadeira. Bendegó parou, ajeitou as azelhas no lombo do animal, coçou o mucuim e foi apanhar a caça. Mal abaixou sentiu o cheiro, o ar quente deslocar a poeira da caatinga e o barulho da tropa vindo com seus paramentos e toques de caixa. Seu tempo foi só de tocar o jumento acostumado ao caminho de volta, baixar a munição no primeiro ondulado e se pôr em pontaria. O primeiro tiro que deu espalhou feridas e tumulto no grosso da tropa.

A fuzilaria começou em muitas direções; o chocalho badalando longe confundiu a maioria das balas; as catingueiras gemeram os tiros. Do oculto, Bendegó conferiu o chumbeiro: tinha mais doze carregos. Esperou a marcha andar. Mudava lesto de posição e conferia os outros disparos.

De onde via a cena, sentia o medo correr pela tropa e a ferocidade salgar a boca dos graduados. Assuadas desorganizando os animais de tração e boca. As cornetas bradando ordens não obedecidas; soldados abandonando o armamento e se metendo por entre os imbuzeiros. Dali segui Bendegó assobiando sua valentia. Na volta ouvi seu relato a Pajeú, que escolhia homens para, no quebrar da barra, assombrar a marcha.


***


Decerto eram sete as feras fechando o cerco antes que a desordem encontrasse circunstância. A paixão de ser, vingando o homem que nenhuma mortalha vestia, a implacável ferocidade que sabia mas não entendia a lealdade e a anomia entre os despossuídos. Sobrepunha heresias drenando consciências. Coisas de bestas-feras.

A fome não significava ao corpo. A morte não significava à alma. Nenhuma vontade havia de qualquer entendimento. O trabalho infamante da mentira passava longe da esperança e da dignidade.Eram leis vestindo a justiça e doando seu amargo.

As feições sustinham os horrores do mundo e atiçavam com os braços invisíveis o ar adusto que engolia a vida. As bestas andavam íntimas, me escurecendo o sangue com fezes e restos de suas bocas imundas. O homem morria dentro, e eu me sentia morrer nele. Meu corpo entorpecia padecendo em nós dois.

Nenhum Comandante de Rua era vivo na madrugada da guerra. A mansidão do Belo Monte tinha sido maculada pelo feroz dos homens. O mau cheiro punha entranhas no ar; matilhas comiam cadáveres e os urubus mal esperavam a aurora; gemidos atraíam os seres rastejantes da caatinga; um sombrio tingia a vontade dos vivos e deles nada havia por nascer.

Rezavam a valentia da vida e destemiam o jeito da morte. Estavam salvos enquanto apodreciam juntos. Assisti à morte fazer o rol das almas por entre os escombros, sorrindo dizer... fartura... fartura... e ensaiar anotações quando descobria alguém ainda vivo.

Ouvia os soldados gritarem: – num dêxa jagunço vivo... num dêxa ninguém vivo... é orde...! E a ferocidade se apossava de todos; o chão chiava como se quisesse se movimentar e engolir o combate; resvalo de balas, sangue esguichando pra todo lado, choro de mulheres e crianças sendo cortadas num talho só. Era a besta-fera solta e o mau cheiro de corpos insepultos apodrecendo dentro dos casebres, fazendo monturos pelas ruas; crianças avançando de zagaia em punho. Um delírio! Era o cego gritando no ouvido de cada um, mesmo dos mortos, sua cantiga de enxergar:

Recolham as armas
E salguem os punhais
Que a aurora seja perfumada
E a lua nasça nos quintais
E nas ruas corram proclamas
Desobrigando os leais
É chegada a hora
Da confiança nos beirais
Uma nova lei escrita
Nas canções dos desiguais
Deixando o amor nascer
Na verdade dos mortais
Recolham as armas
Selem os sinais

O rosto crispado, um misto de medo e soberba bem na minha frente, apontando a arma na minha direção, quase encostando a ponta no meu peito. Um disparo seco e a impureza de sua brabeza passando dentro do meu corpo. Entendia restar vivo e desentendia a velha mulher armada apenas com seu grito: “viva Antônio Conselheiro... viva o Belo Monte” - ser morta pelo balaço.

Por sobre minha cabeça um ricocheteio de projéteis nos contrafortes; os marrotes da caatinga ampliando o som dos tiros, de tambores e cornetas comandando o assalto em meio aos gritos dos feridos.

O desespero correndo entre mulheres e crianças; tempestade cuspindo fogo, abatendo sem distinguir os mais fracos. A dor se invejava e queria mais sujeição. Soltava seu rastro no mais cruel dos combates. Por entre a taipa pintada de tauá coberta de palha, um trucicó de pernas e braços de cadáveres apodrecendo; juntas cortadas, membros mutilados e faces com os olhos perfurados.

Varapaus inertes na mão dos mortos. Foices, ferrões e chuchos defendendo a igreja arruinada e a maior parte das ruas do Belo Monte. A defesa dos poucos sobreviventes era comandada pelos últimos da Santa Companhia. Ensandecidos pelo desamparo e crueldade, imolados pelo fogo entre escombros, gangrenas e cadáveres insepultos... um esparrame de vida engolida pela morte e o servilismo dos algozes.

Da Igreja Velha os disparos sustentavam a batalha inteira. A coragem assombrava o inimigo e os próprios agredidos. Feridos abandonados atirando do parco conhecimento no manuseio de munições e armas abandonadas.... um ar morrediço espalhando a mortalha do esquecimento.


***


A palha ardendo e ele atrás da tapera do Solobro esperando, já vestido de soldado, se misturar a eles. Passaram uns quatro, o último com uma bandeira na mão, quando o puxou para sangrar, sentiu aquela dor no rosto, nas costas e a escuridão adensando.

Zé do Tucano em delírio se misturava ao barulho das balas ricocheteando rente à cabeça; as palhas ardendo, o fogo, a fumaça, o rosto do soldado que ele arrastava para tomar o uniforme lhe vinha na mente. Ouvia as palavras de Severo na última reunião da Guarda Católica destacando quem ia furar o cerco e ajudar pela retaguarda, atacando o comando das tropas e avariando a matadeira.

Em lampejos de consciência, lembrou-se do Tucano, onde nasceu, o pai morto de morte matada; a mãe enterrando filho por filho, seca por seca até resolver seguir João Abade e o Beato. A casa de taipa, a beleza da mãe, a procissão de Uauá. Lembrava misturada com Caluta, a guerra... - agüenta Da Luz, delirava.

- Queria casar com Caluta... lembrava e desfalecia e voltava a lembrar: - “mãe... ela quer.. Dindinha ensina escrevê e contá, Caluta... ensino ocê... fazê breu... Dindinha... venera!” Misturava tudo. “Caluta... reza ...reza...reza... acode a igreja nova... Zé Preto... num morre Pichim, güenta home de Deus...“

Os benditos e ladainhas rezados por todos na igreja, perpassando no meio da luta e no seu torpor... o alvitre do santo pai Conselheiro..... “atira, atira Dalfredo...” a matadeira estrugindo... o cheiro de vela, a voz do santo Conselheiro pregando na igreja velha. No fio de memória lembrou Cabeção sangrando o soldado no barranco do Vaza-barris. “Rogai por nós, meu santo.”

“Os urubus.. na vila... vamo interrá .... Padre Santo... dona Duca... Mããããe...! mortos...tantos mortos... Quenzim, explodindo atrás do tabique, Caluta num chora, corre pra igreja... sem munição Severo... vai no punhal Severo... tira as mulhé daí, o fogo vem cumendo pela rua do Pedro Cacho... Tudo girando... acode meu santo! vamo arretirá as arma deles... amuntoa no beco.... minha mãe... insídia, um batalhão de soldados estugados, protege, meu pai Conselheiro...”

De longe, vi quando Zé do Tucano mexeu a perna e foi levado como se fosse um soldado.


***


Vivíamos aprisionados, Anabel na sua juventude, eu na minha velhice. Nada podíamos fazer. Eu, só podia mover as horas pra trás na imaginação. Ela talvez pensasse ser tudo possível, a vida exuberava a sua volta. Confuso me sentia e misturava tudo. A cabeça doía, não sabia a serventia de tanta coisa que via ao meu redor. Como se saísse do meu corpo e assistisse à vida e à morte se invertendo em contundência. Não entendia os homens, o relógio, os cães, o que existi e nada do que sentia.

Uma intensidade vinha no meu peito, o corpo ensaiado na vida toda se punha em gozos e enlevo. Tinha Anabel e no instante seguinte essa plenitude virava dor. Os momentos inventados flagelavam-se. Misturado ao real, o imaginado sujeitava minha memória. Era a agonia da angústia gemendo alto.


***


Mal abri os olhos e eles estavam na minha frente, mais velhos do que na vez anterior. O semblante preocupado, mas sem a tristeza e a curiosidade das outras vezes. Ana das Letras parecia querer me falar alguma coisa e não sabia como começar. Ao seu lado, Quilimério quase sorria. Minhas mãos não atiraram, pensei. Ela assentiu com um movimento quase imperceptível e me tomou as duas. De pé nos aproximamos do quadro quase pronto de Quilimério.

“- Agora que já estamos partindo, quero te falar de Quilimério. É teu pai... foi o derradeiro a tombar. Tua mãe, Laurina, é aquela ali cantando loas. Foi no Belo Monte que nasceste. Nos últimos dias estavas comigo... eras muito pequenino, e teu pai, altivo demais, lutou até as últimas forças na frente da Igreja Velha.”

Olhei a tristeza nos olhos de Quilimério, secos como a caatinga e ao mesmo tempo irradiando uma luz que era o mais puro amor.

“- Tua mãe entregou a derradeira quarta de farinha uns dias antes. Eles casaram no Cumbe e vieram desde os primeiros do Belo Monte.”

As lágrimas escorreram fartas e silenciosas. Queria, e a criação se punha em posição de mostrar o horror de tudo que tinha visto, no primeiro movimento que fiz com a espátula senti seu olhar me pedindo e depois sua voz calma.

“- Deixa o povo do Belo Monte assim. Termina tudo e vai com teu pai, ele veio te buscar.”


***


No pender do sol, sombrando debaixo dum mulungu seco era como se fosse melúria; o terrento me viu e veio trambecando com a viola encostada no rosto. Ouvindo o sintoma das cordas, o opinoso cego gritava estridente nos meus ouvidos: “- tirante o susto; estás achado, mofino... Disse-me. E gritou sua cantoria:

Recolham as armas
E salguem os punhais
Que a aurora seja perfumada
E a lua nasça nos quintais
E nas ruas corram proclamas
Desobrigando os leais
É chegada a hora
Da confiança nos beirais
Uma nova lei escrita
Nas canções dos desiguais
Deixando o amor nascer
Na verdade dos mortais
Recolham as armas
Selem os sinais

Ia cantando e as cordas da viola se enroscavam no meu pensamento, puxando por cada ponta a ignorância e a prepotência. Um medo ajudava a tensar o aço e chicotear talhos pelo meu corpo. O sangue esguichava pedaços de corpos, gritos tomavam formas em volta e o cego continuava tocando e cantando enquanto me fazia, com as duas mãos esticando os braços, um sinal de dedos me chamando para junto dele. Num mesmo tempo que chamava, tocava o canto da loucura das palavras penetrantes e sãs.


***


O ódio tomando conta, não cansava a guerra. Ia desfibrando em demônios arranjados com tantos assaques. Andava de um lado a outro entre o insultuoso, maculando vontades, parecendo um rio cavando e engolindo, ou aleijando o Deus daqueles todos; a gargalhada do cão ressoava sem repugnar ninguém. Velhas vaidades temendo olhar, tentando submeter, entendendo o sinistro nos benditos que a morte não tirava da voz.

O menino pegava dos corpos estendidos os clavinotes e qualquer outra arma; o polvarinho, as cartucheiras e a pouca munição de boca que encontrava. Andava por entre os mortos como se cumprisse tarefa de limpa; o que recolhia carregava por entre as casas e amontoava na escola. Parecia brincar denodado mal, sem dar importância ao peso que carregava.

Mal dei conta do estilhaço cortando sua carne; só vi a fumaça misturada com a poeira encobrindo tudo. Quando dissipou, jazia seu corpo e o cachorro dando voltas; ora lambia chorando o rosto, ora uivava olhando pro céu e me olhando. Tiros a esmo pareciam cerzir a morte na vida e me costurar naquele momento.

Crianças não sabiam quem eram, nem choravam mais e giravam em volta de mim. O estupor pairava por entre ruas e casebres. Sentia isso mas, na verdade, só enxergava o cego fazendo sinais. Cadáveres se amontoavam diante dos meus olhos, sem túmulos pelos aceiros e os gritos daquela música tocavam dentro dos seus ouvidos e aclaravam o silêncio da morte. O vago entrava no meu cansaço; os membros crispavam e meu tempo voltava numa sensação de terra molhada de sangue.

Estava vivendo momentos que imaginava, mas sabia serem reais. Estavam lá nas fisionomias, passando devagar por entre os cães comendo cadáveres, gente que reconheci, acompanhei em seus sonhos, botando o simples no fazer.

Mulheres estupradas entre corpos mutilados exalando odores, atraindo todos os seres de rapina. Famintos, arrimos de milhares de outros famintos entre caatingas e carrascais. Sortilégio de mãos sem o decoro das palavras apontando quem vivia nas liberdades.

Crianças chorando silêncios, sede e fome, sem entender o Deus e os homens; sendo levadas sem intrujir a caridade naquelas mãos ofensoras, disputando os pequenos seres sem lágrimas; olhares esbugalhados no vácuo, como troféus distribuídos na aparência dum patriotismo de fardamento e sotaina, louvando arrogo.

No meio das crianças, mulheres e velhos, me vejo com dois anos, sem entendimento, sendo amparado por Ana das Letras. Sou tomado na minha frente, como um jaguncinho e não como criança indefesa gritando fome e sede, com a irrealidade da morte impregnada no olhar enquanto a professora conhece a Gravata Vermelha ao lado de Antônio Beatinho.

As imagens estão sobrepostas. Inanido vejo-me seduzido pela boca por um oficial e sou levado pela mão pra distanciação da minha gente e da minha ausência de entendimento. Olho uma única vez para trás. A cena produz um abafamento no ar. Denso, meu corpo toma a dor, a terra seca, esturricada e a caatinga acinzentada se põem em silêncio para assistir, junto comigo, eu menino, ser levado para a adoção junto com outras crianças escolhidas como gado no meio de quem não resistiu e se entregou.

Daquele oficial não me lembrava. O que vinha forte era o casarão sempre em festa, o meu quarto no porão dos fundos com o cheiro pesado da falta de ventilação e do mofo... os doze anos passados, servidão cobrada todas as horas antes de fugir para a vida, deslembrando, cada dia, aquela gente poderosa.


***


Quando me dei conta ela já tinha cortado o pescoço, e o sangue esvaía-se caudaloso empapando a roupa, mal cobrindo seu corpo; o espelho quebrado estilhaçando fisionomias restava no chão... uma ponta em sua mão pingava sangue. O corpo tremia espasmos desenganando a vida. Da porta, uma cortina de panos sujos, os rostos assonsados olhavam sem ação. As fuampas e suas doenceiras olhavam a menina ainda botando corpo, bulida na noite anterior e não acudiam o último instante. Ela era muito nova e dada, sorria por qualquer coisa, diziam sem entrar no cômodo. Minhas mãos tocavam no corpo quietando; na validade daquele desespero, ouvia o balbucio saindo do corte: “... mãe...!”

Naquele lugar sem luxo ou vaidades, o ludibrio tocava na ignorância e na força das tropas carregando negociatas e usuras; impondo fome, doenças e maus tratos às mulheres de todas as idades que conduziam prisioneiras. Vi muitas restando no caminho pelos bordéis.

A fumaça arde, a sede queima, o calor abrasa, a poeira sufoca e tudo sofre. É quando me sinto na sala e vejo Ana das Letras arrumar quadro por quadro e ficar ao meu lado enquanto termino de escrever essas palavras. Só agora sei que as escrevo pra você, Anabel, e o amor que juntei das lembranças e só lhe dei em meu pensamento e o que mais existiu dentro da vida.

Meu pai Quilimério sorrindo estende a mão; vejo na mãe um contentamento e sei que não volto mais. Vou com meu povo para um lugar novo, um silêncio. Agora sei minha história que te deixo junto com meu amor. Vou na imensidão da loucura levando o estandarte de um reino e a carne do meu corpo em vão.










O POVO DO BELO MONTE


Antônio


A Guarda Católica


Cantando Loas


Antônio dos Mares


O Caminho do Uauá


A Família de Caluta


Caminho de Massacará


O Beato


O Conselho


Pé de Côco


Laurina


O Povo da Terra


Antônio Penitente


Beatinho


Zé Sereno


Beleléu


Gente do Tucano


As Beatas


Tifio Finando


Benzendo Benícia


Bandeira do Benvirá


Severo Dias


Bendegó


Ponta do Cambaio


Os do Manoel Quixadá


Ana das Letras


Conselheiro


Quilimério


Esboço


A Espátula








ANABEL


Desde que o vi pela primeira vez com fisionomia cansada, mas aparentando muito menos idade do que tinha, apaixonei-me e tentei chegar dele o mais próximo que pude. Talvez o tenha amado como a ninguém. Às vezes me perco em pensamentos e nem sei se ele existiu de verdade ou se estou existindo de verdade sem ele.

Quando comecei a visitá-lo mais de uma vez toda semana, sem telefonar para marcar, me acostumei a saber quando ele queria que eu entrasse. Foi pela música. Se estivesse tocando Villa Lobos não me receberia. Quando me deu a chave da casa, nem precisou me falar desse sinal. Outras coisas aprendi naturalmente: não mexer no seu material de trabalho, em sua estante de livros, nos discos e na sua vitrola nova com uma caixa enorme de agulhas; nem na gaveta onde jogava a correspondência que recebia e nunca lia.

Nunca havia conhecido alguém assim, que ouvisse minhas confidências com atenção e interesse sem se intrometer. Ouvia dos meus amores, enganos e pequenos acertos, calado. Era como se pertencesse a minha história. Eu me desnudava inteira como nunca fizera antes nem com minha melhor amiga. Dessa forma me entregava a ele que nunca falava de suas coisas pessoais. Nossa comunicação tinha um formato diferente, uma espécie de amor e cumplicidade e a dose grande de loucura dos seus últimos meses que eu compreendia sem entender. Uma primavera inteira na intensidade de quase um século, foi o tempo de nossa convivência.

Entreguei-me totalmente às tarefas que me impus: coisas práticas do dia-a-dia e aos seus olhares que me falavam de lonjuras e plenitudes, sem conseguir esconder a angústia e a solidão. Em diversas ocasiões o desejei, quis seu corpo e quis lhe dar o meu. Uma vez ele me disse que meu olhar era muito generoso, e que via a vida no seu trabalho, e que ele via meu olhar ver a vida dele. Pensei beijá-lo naquela hora, mas não tive coragem. Seria como arrancá-lo de alguma intensidade; acabara de pintar sua mais bela obra e chorava por muitas horas quase todos os dias. Eu ficava sentada do lado de fora da porta ouvindo repetidamente as Bachianas e seus soluços.

Naquele dia, quando a música parou e entrei, vi o quadro Caminho de Uauá pronto. Admirei com os olhos lacrimejando na emoção da beleza de obra e autor se confundindo nos meus sentimentos; do artista e do homem vivendo em meu coração intensamente.

Poucas vezes consegui tirá-lo do casarão para um restaurante, um bar. Ficava desconfortável e arredio, mas tratava a todos muito bem e com carinho. Nunca à vontade, parecia não estar inteiro em lugar algum. Só uma vez fizemos um passeio no bosque; era um início de primavera e ele olhava o verde como se enxergasse cada musgo e o tom de cor que a tarde trocava. Eu invejava aquele olhar, queria ser olhada assim. Ali estava inteiro, parecia inventar espaços, perspectivas e cores.

Por ele mesmo nunca soube nada sobre sua vida, mas pesquisando e perguntando às pessoas mais velhas ligadas à arte, somado ao que sabia da faculdade, era como se o tivesse acompanhado de perto desde sempre, desde sua sobrevivência nas ruas, fazendo pequenos serviços; a adolescência como ajudante numa pequena tipografia de bairro, suas dificuldades no começo de carreira, a intensa boêmia, sua convivência com os artistas mais importantes do país, os prêmios, tragédias e amores. Sabia de todos eles e confesso que, de alguns, cheguei a ter ciúmes.

Uma vida intensa num homem diferente do tamanho de sua obra, era unanimidade. Somente não conseguia entender ele estar sozinho, não ter tido filhos; não responder a tantas cartas que chegavam todos os dias; pedia-me para deixar em cima da escrivaninha e depois colocava na gaveta da estante dizendo que depois iria ler e nunca lia. Cartas de amigos importantes, intelectuais de todos os lugares e de muitas entidades culturais. Imaginava, enquanto guardava, quanta importância tinha aquele homem simples, sem nenhuma vaidade ou extravagância.

Só uma vez o vi abrir uma carta que ele me leu. Era de Vinícius de Moraes contando de um novo amor e de um novo parceiro. Falava também de solidão... “porque fazemos um – eu e a mulher – e não há dois arrependimentos... para um só corpo – nem duas salvações para um só sentimento...” nunca mais soube desse poema, mas o fragmento do verso e a entonação da voz gravei para sempre. Nesse dia me senti a mais privilegiada das mulheres. No final o poeta perguntava – “me conte em que imensidão andas morrendo, irmãozinho?”

Quando acabou de ler, senti que se arrependera de abrir o envelope; parecia que alguma ferida tinha sido aberta, e seus olhos apontavam algumas lágrimas. Discreta, me ausentei da sala percebendo o dilacerar do momento. Agora sei em que imensidão andava e que de fato morria nela.

Sentia desde as primeiras vezes que fui à sua casa o quanto era arredio na convivência com as pessoas. Tratava a todos muito bem, conversava sobre música como se fosse um especialista; sabia tudo da poesia brasileira, de qualquer das nossas artes, do nosso folclore, mas fugia do assunto quando alguém falava da ditadura ou de política. Não se aproximava das pessoas, de nenhum carinho físico ou coisas parecidas. Nunca sequer o abracei, mas não era formal e tinha sempre um olhar carinhoso, enxergava de verdade as pessoas.

Um dia, quando lhe servia a sopa, encostei sem querer o seio em seu ombro, e meu rosto aproximei, de propósito, até muito perto do seu. Senti que ele sentiu meu cheiro e se desconsertou. Pareceu ter uma dificuldade enorme em se arrumar nos movimentos de mexer a sopa, do corpo e de algum seu querer.

Dali, daquele momento, fiquei esperando o menor sinal que fosse para cair nos seus braços, amá-lo fisicamente também. Ter sua velhice de homem sem idade, tê-lo só meu.
Esperei todos os dias e em todos eles me senti olhada com amor, mas à distância. Às vezes com paixão, mas sempre à distância.

Toda vez que o vi triste tinha vontade de pegá-lo no colo, e uma melancolia grande me tomava nessas horas. Sabia um sofrimento intenso estar dentro dele, mas não conseguia imaginar sua criação nascer de tanta dor. Muitos dos seus quadros famosos que conheci na escola, nas revistas especializadas e nos museus, me diziam de um artista coerente e intenso desvendando a alma brasileira, densa, mas alegre e generosa. Nunca imaginei tanto tormento, não naquele artista. Pensei em alguma droga, prestei mais atenção sobre isso, não era! Bebida? Também não! Ele só bebia quando não estava pintando. Uma grande desilusão amorosa? Não fazia sentido! O isolamento, ele mesmo se impunha: só atendia à porta quando precisava de dinheiro; nem abria a correspondência, o telefone nem sempre atendia e talvez por isso quase nunca tocava mais.

Durante uma semana ele não trabalhou. Passamos dias lendo um ao lado do outro nas poltronas da sala; ouvimos dezenas de discos; nenhuma música de Villa Lobos, mas eu não tinha coragem de perguntar sobre muitas coisas, e essa era uma delas. Um dia pensei que iria me tocar, me tomar nos braços. Era um fim de tarde de domingo, ele lia Guimarães Rosa, e não me dei conta de que eu abandonara a leitura e o olhava de um jeito diferente, como se só existíssemos no mundo sem tempo. Misturados na minha emoção por inteiros, parecíamos formar um ser só. Senti um calor enorme no corpo, um desejo dele me pertencendo; senti meu corpo se molhar de desejo e percebi que ele também sentiu de alguma forma toda aquela atração. Ficou meio inquieto percebendo meu olhar e se retirou da sala.

Durante aqueles meses todos de nossa convivência, aprendi a amá-lo daquele jeito diferente: ele arredio a qualquer contato físico que aceitei sem nunca tocar no assunto. Aceitava pela intelectualidade que bebia na nossa convivência; aceitava quase viver um grande tempo da minha vida com o mais famoso pintor brasileiro vivo, sem entender direito muita coisa do que acontecia com ele e comigo. Mesmo recebendo muita crítica de meus amigos e familiares fui cada vez mais me envolvendo em sua vida.

Quando passei duas semanas fazendo um curso fora da cidade, soube da falta que lhe fiz. Não que me tivesse dito, mas foi o que senti no dia de minha volta. Ele não demonstrou, exceto pelos olhos; esses sim falavam todas a palavras que eu queria ouvir.

Tínhamos momentos inesquecíveis conversando sobre pessoas e assuntos que eu conhecia pouco. Ele contava muitas histórias; dos Farrapos, dos Cabanos, dos Guararapes, da nossa formação cultural, do movimento nordestino logo após a Semana de Arte Moderna, revelando outro Brasil; contava dos nossos artistas mais importantes... seus amigos. Um dia provoquei o tema Canudos, ele mudou de assunto. Só hoje percebo que nunca falamos de nossa história recente, da ditadura, e de Canudos a não ser superficialmente na segunda vez que o visitei.

Parecia que tinha morrido lá de alguma forma, só hoje entendo. Nunca consegui pesquisar sua vida como um dia imaginei ao me aproximar dele; reconstruir sua infância, os anos de seus melhores sonhos, seus amores... a época da ditadura, sua prisão. Ele se esquivava de falar sobre sua vida de uma maneira curiosa - discorria sobre os quadros que pintara na época, onde deveriam estar, quem os comprara; da infância lembrava desenhos, rabiscos feitos com carvão nas paredes e nada mais.

Nunca mencionava quem cuidava de seus negócios ou qualquer coisa que envolvesse dinheiro. Quando comprei um quadro seu, deixei o cheque em cima da escrivaninha e quando retornei estava no mesmo lugar.

As pessoas sempre pensavam no material que estava colhendo, imaginando que eu pudesse estar escrevendo sua vida, confirmando histórias com o próprio. E não era nada disso. Muito cedo soube nunca aconteceria. Existia alguma coisa muito forte se passando naquela casa, na sua criação e entre nós, e sabia ser eu a testemunha que ele queria junto, naquele fim. Hoje sei que fui.

Muitos dias se passaram sem que eu pudesse entrar. Dia e noite as Bachianas tocavam sem parar. Eu da porta as ouvia misturadas ao choro dele. Triste, muito triste mas intenso e belo; era um esplendor que eu sabia acontecer lá dentro, igual ao dia em que também senti o encantamento de ver uma das telas terminadas.

Os dias se passavam, as noites e madrugadas; o tempo sendo tragado pela música e minha preocupação aumentando, tentando adivinhar alguma enfermidade acontecendo naquele homem que eu amava e nunca vira tomar um remédio que fosse. Sua vitalidade não combinava com a idade. Seu jeito de viver e trabalhar muito menos. Tentava lembrar se tinha comida suficiente, se alguma coisa tinha feito que o aborrecesse. Pensava na música tocando e me acalmava; a agulha da vitrola se desgastava em poucos dias, e ele a trocava, senão como ouvir aquela música a mim proibida?

Incansável, fazia minha peregrinação até a porta da casa todos os dias, em diversos horários, até mesmo de madrugada. Uma atitude quase insana, segundo os meus mais próximos. Um dia, acabei por concordar e passei espaçá-las. A música continuava tocando, mas parei de ouvi-lo chorando lá dentro, o que era um prenúncio de que breve eu poderia entrar. Qual nada! Mais uns dois dias passaram, quando ouvi o chiado da agulha arranhando o disco. Então, me desesperei e resolvi entrar mesmo que lhe desagradasse.

Era um entardecer e o sol entrava pelas janelas num brilho dourado e fraco, a melhor hora do dia, hora maior da luz da vida, dizia ele. O que vi nenhuma palavra pode reproduzir. O que senti foi uma plenitude tão grande que instintivamente troquei a agulha da vitrola e aumentei o volume não me importando se ele gostasse ou não.

A casa estava toda arrumada, nada fora do lugar. Não havia vestígios de nenhum material de trabalho espalhado, nenhuma garrafa vazia, nenhum cinzeiro cheio como era costume ficar pela sala quando ele se isolava. Arrumados estavam os vinte e oito quadros que diariamente o vira pintar e ficavam num canto esperando o acabamento e a assinatura.

Ali estavam prontos em meio à combinação da luz e da música, exalando energia e uma tristeza infinita. Pus-me em prantos, nunca havia visto nem sentido nada igual; uma melancolia traspassando meu corpo me enchendo de saudade. A tristeza parecia estar em todo lugar, meus olhos não conseguiam desgrudar daqueles rostos, as expressões pareciam se misturar, o mais profundo da terra, da cor de terra, como entalhes na madeira mais nobre; era o barro-papel que ele preparava servindo à vida que meu olhar úmido contemplava.

Procurei por ele pela casa, queria pertencer-lhe de qualquer maneira. Naquele momento, uma intensidade de amor me possuía - era totalmente dele – e o que mais queria era lhe dar aquele momento, em que todas as sensações do corpo e da alma estavam na mais absoluta harmonia no meu coração.

Quando o procurava encontrei a espátula com a qual trabalhava em cima de uma pilha de folhas de papel ao lado da máquina de escrever, com meu nome na primeira folha e, na segunda, o esboço de um enterro sertanejo como os muitos que ele pintou na vida.

Ali estavam os versos unindo o que lhe contei da minha vida, as experiências, o que senti do amor antes de conhecê-lo, entremeado com nosso convívio e com o seu sentimento.

Li os poemas pausadamente e, no mesmo ritmo, sentia a sala se encher de abandono. Li e reli, aos prantos, muitas vezes, esperando que ele chegasse de algum lugar. Agora entendia o quanto tinha de intenso e vazio; quanta afirmação e negação juntas.

Fazia na poesia de seu amor sentido, uma forma de morte lenta, uma parte minha doada enlaçando e esquartejando meus amores e os seus, juntos, ao tamanho dos nossos desejos. Na verdade só descobriria o significado de tudo depois, mas já sentia o enlevo daquelas palavras nos juntando para sempre no passado, presente e futuro.

Sentia o abandono doendo por dentro e por alguma intuição que não sei explicar, saí correndo para buscar minha máquina fotográfica. Ao voltar encontrei a mesma luz do entardecer dentro da sala, parecia iluminada para as fotografias que intui fazer. Só aí percebi que nenhum estava assinado e entendi a sua essencialidade e tudo que o acontecera. Um anunciado deslumbrante. Nos tons, uma quase ausência de luz era a luz.

O relato de seus últimos dias só encontrei na manhã seguinte, quando voltei na esperança de encontrá-lo. Estavam no mesmo lugar que os poemas. Levei para ler pensando em deixá-lo à vontade. Mal cheguei em casa e soube da notícia. Um enorme incêndio estava destruindo a casa do pintor Brás Teodoro.

Quando lá cheguei só havia escombros e fumaça. Nenhum corpo foi achado; os bombeiros reviraram tudo e nada foi encontrado a não ser sua espátula que conservo comigo até hoje.

Umas horas ficamos na esperança de que ele estivesse fora e fosse chegar a qualquer momento. Para mim, esse sentimento dura até hoje, mesmo depois de ter lido o que ele me deixou por derradeiro e entendido sua poesia e seu amor.

Na memória e nos meus olhos ficaram Brás Teodoro e o povo do Belo Monte. As fotografias e os poemas, nunca mostrei a ninguém.

Tudo isso ainda vive no meu coração com a mesma intensidade nesse silêncio, demais.







OS POEMAS




Colhi de tua boca
O que viveste
Do amor
E no meu coração
Como vivi
Os meus
Misturados
Na convivência
A poesia
Ajudou-me
Sonhar a história
Que não vivemos
O desejo criei
No meu corpo
Todos os dias
E o amor
Agora te entrego
nos versos
Onde morrendo
Também nasci


***


Olho teu olhar
E o mundo gira
Como se bêbado estivesse
Mas, sou eu quem
Bebe a beleza
E enxerga a poesia
De teu corpo
Recitando gestos

A lucidez
Não convence
Minha loucura
Porque é pouco
Ser são

Olho em volta do teu olhar
E o mundo continua girando
Como se bêbado estivesse
Mas, é minha loucura
Embriagando a lucidez
Tentando confundir
Qualquer sensatez

Olho além do teu olhar
E o mundo continua girando
Como se estivesse bêbado
Mas, sou eu quem bebe
Na lucidez a loucura
De te perceber


***


Hoje um poeta
Amanheceu em vigília
Na sala da minha casa

Enquanto de lá não
Saírem os vestígios
Da tua presença
Ele também não sairá

E a poesia
Com seus punhais
Vai esperar calada
Um homem sonhar


***


Na mesa do bar
Vi nascer poesia
Nos guardanapos
Que dois poetas
Copulavam com
Suas canetas
Ora calmos
Ora ensandecidos
Maravilhado
Olhava e pensava
Nos teus olhos
Derramando
Umidade e consentimento
Em cima da mesa
Aquele chegar
Inesperado e cúmplice
Enchendo portais
E o olhar de todos
Flechando sentimentos
A perplexidade
Fingia não esperar
Aquele momento
E o calor de pele
Quase entrou
Em combustão
Na mesa do bar
Entre dois poetas
A tarde perfumava
Minha insanidade
Copulando com
Tua ausência


***


A solidão ronda o dia
Como uma canção triste

Roda em volta
Enquanto te idealizo
Vestida do meu corpo
Gemendo mistérios

Roda em volta
Enquanto me idealizo
Teu e tanto
Gritando esquecimentos

Mas a mentira do instante
Faz a solidão parar de rodar em volta
E, como o cachorro que passa
Olha-me e vira o rosto com indiferença
- Hum... é ele de novo!


***


Fui inventado aos poucos
Assim
Meus olhos
Teu olhar inventou
Meus cabelos de algodão
Foi coisa de tuas mãos
O sol queimando um beijo
E o meu desejo
Sei quem inventou
A mentira, tiraste da minha boca
Para deixar a maciez
Que tua pele inventou
Inventaste serenidade sim
E um jeito de te amar
Sem fim
E dentro de ti
Uma parte de mim
Sei quem inventou
No meu coração
Um senso de direção
Uma amarração
Um pouco de adolescência
Num jeito de poesia
Inventaste meu cheiro
E saliências nas minhas mãos
E me inventaste
Com muita sabedoria
Tão sem idade
Tal qual eu sou


***


Ao lembrar
Teus olhos

Transmuda os meus
Nos teus

Sobrepõe à minha face
A tua
Materializada no pensamento

E te transporto inteira
Pra dentro de mim

E de repente te sou
Minha

E de repente me és
Teu

Enlouqueci?
Pode ser que sim
Pode ser que não

Enlouquecemos?
Tenho certeza


***


Queria um dia
Me enrodilhar no teu corpo
E sair do meu mundo
Entrando no teu
Trazendo o teu mundo
Pra dentro do meu
Te entregando ereto
O amor dos meus gestos
Enquanto são meus


***


Transportar-me
Para este papel branco
Com a força do mar
A severidade dos ventos
A pureza dos sonhos
E ser tão verdadeiro
Como minhas horas de amor
E depois
Ver nele teu rosto
Nas letras que desenham
O meu pensamento


***


O gosto sobra
Na memória da boca
Os olhos passam
As horas pra trás
O súdito anda
O domínio dum rei
E se põe em espera
Por entre as manhãs
E as palavras relidas
Que de mãos dadas
Ressoam bem além
De seus significados
Guardam a chave
Do bem guardado
E se desbotam
De tanta vontade
Desencontrados
Na vida toda
Como entender
Que existe o pecado
Se foste só tu
Nos meus amores
Fingindo mulheres
Em todas as faces


***


Sabem as palavras
O momento dos versos
Que vivem em mim
Impetuosos e livres
Às vezes, andam
Por tempos
Em outros quintais
E as palavras choram
Doloridas de ausência
Mas as consolo
Dando-lhe a mão
Para, no portão,
Esperar um verso voltar


***


O que não te posso dar
Em todas as horas de viver
Dou-te assim, no pensamento

O corpo de outras mulheres
Ainda me lembro, era o teu
A voz de todas elas
Eu sei que era a tua
O olhar, se as amei
Só poderia ser o teu

A ti pertence o pensamento
Deslembrando o tempo
E as mil vezes que morri
Antes de te reconhecer

Mando as horas pra frente
E te dou vivido, o que sou
E o que finjo e finjo tão bem
Que sou a mentira me crendo real
Em todas as horas de viver
Dos instantes antes de te conhecer
Até os momentos, os últimos que vou ter
Também te invento inteira
No meu pensamento
E te imagino minha e verdadeira
Para jamais esquecer


***


Se hoje uma dor
Veste teus olhos
Muito amor
Sente o perdão

Se o fato, o ato
Ainda choram
Feito uma lança
No coração

O teu caráter
Quem absolve
E te concede
Sua razão

Porque é assim
Que a vida mora
Quando erramos
É construção


***


Deixa-me te amar muito
Em todos os momentos
Deixa-me eternizar
No meu corpo o teu
Onde já habitas
Deixa
Refletido estar
Sempre
Nos teus olhos
Onde possuo dimensão


***


Salto pra dentro do teu amor inteiro
Não é uma parte de mim que te ama
Nem a que depressa queima
Nem a que contém calor
Salto com a vida toda
Com todos os ferimentos
E as cicatrizes da dor
Com todos os momentos
Em que há verdade no amor
Com todos os rudimentos
Que me foi dado supor
Salto pra dentro do teu calor inteiro
Não é uma parte de mim que te quer
Salto com a vida toda
Desde a puberdade
Até a madura idade
Salto de todas as lembranças
E do que quero esquecer
Com a vida toda
Como mandam o corpo e a alma
É assim que salto
Para perto do teu amor


***


Que só houvesse um reino
Queria eu
Onde só houvesse súditos
Seria eu
E tu
Se quisesses, seria

Assim ninguém reinaria
Por sobre qualquer vontade
As guerras e quem vence
Qualquer delas
Seria o de menos
E nem eu nem tu
Invejaríamos qualquer batalha

E quem soubesse do amor
E viesse contar
Perder-se-ia no reino
Procurando um rei
Pra quem delatar


***


O verde engolia o silêncio
E invejava o instante
Vomitando mormaços

Havia entrecortes de solidão
Espalhando ermos e sinais

Ali o inesperado esperado
Entre suores e restos de adolescência
Como encanto conspirado
Em formas e zelos

Dois seres
Recitavam seus
Sins e nãos
Jurando um jeito de nascer


***


Súbita mulher
Que redesenha
Minha angústia
Em contentamento

Fúlgida mulher
Que colhe
Das labaredas
A umidade do amor

Túmida mulher
Que dança
Improváveis notas
Fingindo aprendiz

Lúcida mulher
Que só é louca
Quando me quer


***


De amor
Chamaria o teu nome
Minhas mãos
Dir-te-iam das saudades
De desejo
Vestiria teus beijos
Nossos braços
Sonhariam verdades
E um rio
Escolheria o caminho
Encobrindo
Nossas pegadas
Escondendo do desencontro
Os restos do amor sonhado


***


Fechem as cores
Apaguem as luzes
E amordacem os vaga-lumes
Cubram as ruas e os anfiteatros
Ponham as casas nos porões
E cubram com escuridão
Juntem sol, lua
Estrelas e amarrem,
Feito uma trouxa,
Com as pontas do céu
Deixem o céu, ao próprio léu
Fechem as nascentes
Dos rios, os centros
Os templos, o tempo
E a periferia
Escondam a cidade
Os remédios antigos
Os novos sabidos
Façam o que digo
E me tragam
Um coma induzido
Meu único abrigo
Até tua chegada


***


Pensei suportar
Penei esperar
Parecia um rei
Desgovernando
A lei que tracei
Sem traçar
Pensei controlar
Penei separar
Parecia a lei
Reinando
Num rei
Que ficou
Sem lugar
Parte de mim
Era o rei
A outra, a lei
Em qual nem sei
Das duas
Eu mais apanhei


***


Entre conteúdos
E fazimentos
Dizendo do olhar
Decerto o teu
Estavas aqui
No fragmento
Da tua voz
Lenindo saudade

As palavras
Que traduzi ouvir
Pediam meu coração
Fossem sinônimos
Só de paixão
E ensinasse
Melhor conseguir
Tolerar do tempo
O seu andamento


***


Ainda que a lua
Jogasse restos de luar
Ainda que as palavras
Soassem em mim
Ainda que invejasse
As que faltaram
Ainda que me imaginasse
Vestindo teu corpo
E sentindo a volúpia
Da tua presença
Mesmo assim
Senti a solidão
E me perdi completamente
Minha identidade
Ficou nos teus olhos
E a solidão do mundo
Está entrando pela janela


***


Um dia ou quantos
Tem nesse turbilhão
De longas horas
Ressoando nas ruas
Que lembram você
Em quantos e tantos
Ainda é primavera
E a esquina espera
Seus passos passar
Em que dias estão
Escondidos os instantes
Do seu jeito de olhar
Em que segundo andará
Tudo o que nascemos
E nunca morrerá
Em que hora do dia
Um conflito haverá
O medo é tão perto
E na tarde a saudade
Não sai do instante
Em que não estás


***


A cama vazia
E os meus beijos
Jogados no chão

Soltos sem enlaço
Os meus abraços
Mofados estão

Ando jogado
Fora dos lençóis
Esparramado
Meio bagunçado
Cadê minhas mãos?

Peço não demore
Arrume logo o quarto
Antes que seja fato
Eu morrer de você


***


Rente um silêncio
De janela fechada
O quintal da casa
Recolhe no chão
O viço do jambeiro
Que taciturno dança
Passos de flores
Chorando saudade
Na mais perfumada
Das horas da noite
De uma paixão

Rente um silêncio
De janela fechada
O quintal da casa
Recolhe no chão
Um confuso luar
Cheirando a solidão
Que a lua minguando
Põe pela noite
Separando em pedaços
O mais dolorido
De uma canção


***


Dou cabimento ao que cabe
Inteiro em meu coração
Pela manhã o seu amor
Cabe então
No dia que passa o seu amor
Cabe então
Na tarde que vem o seu amor
Cabe então
Na noite que chega o seu amor
Cabe então
E em centímetros do meu desejo
A saudade do seu amor
Arde então


***


Percorrerei
Com meu corpo, o teu
Desvendarei todos os mistérios dele
Possuindo teus sentidos
Com avidez de querer morar
Dentro de ti, sempre
Sentirei teu cheiro mais íntimo,
Teu gosto
Arrepiarei cada vez
Que tua pele roçar minha pele
E te possuirei totalmente
Com vigor e suavidade
A mim pertencerás
E te pertencerei
Ilimitando os limites
Que tem qualquer lei


***


Seriam teus
Meus pensamentos
Fora do torpor
Em que tudo acontecia,
Minhas entranhas
Reviravam-se
Como num parto,
Como se o rebento
Fosse a própria dor
Dentro deles
Queria te levar
Por entre o povo da terra,
Fora de qualquer lei
Que só a loucura
Pode arrumar dentro da gente
Vagar com eles
Pela cor do quase esquecimento,
Por tons de solidão
E traços brutais
Chorar no meio
De uma guerra inteira
Vendo a verdade da minha vida
No pensamento
Queria que vivêssemos juntos
Uma fé dolorida
E momentos só possíveis
Aos incrédulos,
Nosso amor incompleto
E sem recesso, uma melancolia
E a absurda ausência
Da tua presença em mim


***


Torna-se queixume
A pele queimando
O calor da boca
Os olhos espantados
Em merecimento

A primavera gera
Mágica conspirada
Entre olhares e lençóis
E forma o ser
Enlaçando como heras
À vigência dos sarçais

Seduz o nascido
Cada parte de nós dois
Um reino indo
Onde o rei nunca foi


***


Todos os dias
Desesqueço teu olhar
E sonho com as rimas
Que as palavras
Sabem me dar

Todos os dias
Dentro de um verso
Esqueço os instantes
Em que não estás

Todos os dias
A saudade volta
Ao poema onde sei
Que sempre estarás

Todos os dias
Perco-me no tempo
Desesquecendo de te lembrar


***


Cada gesto
Das minhas mãos
São momentos
Do teu corpo
E da minha boca
Cada um deles
Esquece as palavras
Mistura temperaturas
Para te beijar
Em cada instante
Dou-te meu olhar
Para o teu invejar
E todo o meu cheiro
Para o enlevo do teu
Sonho as histórias
Da minha voz e da tua
E o calor corre
Enchendo meu sangue
Em cada instante
Transbordo no precipício
Do teu gosto de aurora
E bebo o orvalho
É assim que me alimento
De teu corpo entorno
Dos momentos em que
As lembranças da vida
Para a vida retorna


***


O tempo finca
A demanda
Porosa e fria
E desmanda

Nenhum amor
Quando súdito
Pode sentir
As coisas do rei

Ele vive é sem liturgia
Se vestindo de enlevo
Sem simulações

O medo não é medo
Quando parece sentido
E só escolhe o perdão

Seu jeito súbito
Denuncia a razão
E coloca loucura
Em todas as mãos


***


Foi uma canção ferida
Que a mordaça deixou
Escapar da boca sedenta
Fugindo de sua hora

Foi uma dor fingida
Nas horas sem contas
Saindo do seu real
Em perfume e fel

Desmandou as mãos
E o ferimento entalhado
Descomposto na costura
Nem precisou de perdão

Nascido assim mesmo
O que se quer, se quiser
Juntado as partes
Que decompõem uma razão


***


Sonho com você
E meus sonhos
Escondem a impotência
Que o tempo
Impôs a meu corpo

A poesia que dele sei
Ficou esmaecida
Virou lembrança
E só pode estar mesmo
Assim

A poesia que sei das cores
Não está nas minhas mãos
Nelas agora há um momento
De terra e chão queimado
Pela angústia

Meu coração pertence
Mas meu corpo
Constrange a beleza
Do amor que sinto

Então minhas mãos
Nunca te tocam
E por isso peço perdão


***


A paixão não sabe a hora
De esconder-se da dor
E nem sonha pra sempre
Viver do mesmo calor
Ela não morre ardente
Como queremos supor
Só fica indiferente
Negando seu estupor
Mas um dia a saudade sente
Dispondo o seu valor
É quando o tempo mente
Nos descaminhos do amor
Deixando tanto da gente
Para o melhor de nós dois


***


Enquanto viver
E sentir o vento
Correndo em teu corpo
Sou eu te abraçando
Suavemente
Sou eu, teu
Sinceramente









POSNUNCIADO




Anabel Maria da Veiga Pimentel foi socióloga, historiadora e antropóloga, viveu sozinha no silêncio das margens do Açude de Cocorobó, desde meados dos anos 70, até morrer em março de 2004.

Foi de lá que sentiu saudades de Brás Teodoro e estudou o Povo do Belo Monte. Seus estudos foram publicados em inúmeros ensaios, artigos e em onze livros. São obras de referência sobre o Padre Ibiapina, Antônio Conselheiro, o Belo Monte e o povo daquela região.

Quando morreu, foram encontrados entre seus pertences, uma caixa com a espátula, as fotografias, o esboço, os poemas, o artigo, o relato do pintor e o seu aqui transcritos na íntegra.

Quem anda pela região, certamente ainda ouve, além do silêncio, a canção que ela espalhou por lá.


te canto incelenças
benditos
e ladainhas
envergadas sementes
na ponta dos sabres
das tropas juntadas
vaza o que guardas
vaza-barris
reúne o conselho
quilimérios, antônios
calutas e santos
vaza a história
descobre barris
sementes
que enterras
ruínas
que escondes
entre peixes
e cantos
vaza o que guardas
junta barris
com o choro da terra
o ontem
quimeras
com que hoje
enterras
vaza o que guardas
vaza-barris
incelença de silêncios
nos mantos dos montes
incelença de silêncios
nos mantos dos montes
não esquece brasil
vaza-barris



FIM

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